A presença cada vez mais assídua de capivaras, os maiores roedores do mundo, em um parque localizado em Santa Catarina tem gerado apreensão entre os residentes vizinhos à área verde. Os animais, que naturalmente buscam ambientes aquáticos e vegetação abundante, parecem ter encontrado um refúgio convidativo nas proximidades das moradias, levantando questionamentos sobre a segurança pública e os desafios da gestão da fauna silvestre em contextos urbanos.
Com relatos de avistamentos diários e até mesmo interações mais próximas, a comunidade tem manifestado preocupação com os potenciais riscos associados à proliferação desses mamíferos. A situação evidencia um dilema comum em diversas cidades brasileiras: a busca por um equilíbrio entre a conservação da biodiversidade e a garantia do bem-estar e da saúde da população.
Preocupação da comunidade e os riscos associados à presença de capivaras
Os moradores das imediações do parque catarinense expressam uma série de apreensões. Entre as principais, destacam-se a possibilidade de acidentes de trânsito envolvendo os animais, especialmente em vias com maior fluxo de veículos, e o temor em relação à transmissão de doenças. As capivaras são conhecidas por serem hospedeiras do carrapato-estrela (Amblyomma sculptum), vetor da bactéria Rickettsia rickettsii, responsável pela febre maculosa brasileira. Esta enfermidade, que pode ser grave e até fatal se não diagnosticada e tratada precocemente, é uma das maiores preocupações de saúde pública relacionadas à interação com esses animais em áreas urbanas.
Além dos riscos à saúde humana, há relatos de que os animais podem causar danos a jardins e áreas de lazer, embora de forma menos expressiva. A mera presença de animais selvagens de grande porte, mesmo que herbívoros e geralmente dóceis, pode gerar sensação de insegurança, especialmente para crianças e idosos que frequentam o parque. A interação desassistida com qualquer animal silvestre é desencorajada por especialistas, que alertam para a imprevisibilidade do comportamento animal em situações de estresse ou defesa.
O desafio legal e institucional para a gestão da fauna silvestre
Diante do cenário, a prefeitura local tem se manifestado, explicando as limitações legais para intervir diretamente na situação. A gestão da fauna silvestre no Brasil é regulamentada por uma complexa rede de leis ambientais, sendo de competência primária dos órgãos federais, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), ou órgãos estaduais, como o Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA/SC).
Municípios, em geral, não possuem autonomia legal para realizar a captura, remoção ou manejo de animais silvestres sem uma autorização expressa e um plano de ação aprovado por essas instâncias superiores. “A intervenção em animais silvestres exige um arcabouço legal robusto e uma expertise técnica específica que muitas prefeituras não dispõem”, explica um especialista em direito ambiental, ressaltando que qualquer ação não autorizada poderia configurar crime ambiental.
Essa dependência de autorizações e a necessidade de equipes especializadas – como biólogos, veterinários e técnicos em manejo de fauna – criam um gargalo burocrático e operacional. O processo para obter a permissão pode ser demorado e exige a apresentação de um plano de manejo detalhado, que contemple desde a avaliação populacional dos animais até o destino seguro para a relocalização, se for o caso. O custo de tais operações também pode ser um fator limitante para orçamentos municipais.
O comportamento das capivaras e a expansão urbana
As capivaras (Hydrochoerus hydrochaeris) são mamíferos semi-aquáticos, nativos de grande parte da América do Sul. Sua dieta é predominantemente herbívora, baseada em gramíneas e plantas aquáticas. Elas são animais sociais, vivendo em grupos que podem variar de poucos indivíduos a dezenas, dependendo da disponibilidade de recursos.
A presença crescente desses animais em áreas urbanas e periurbanas não é um fenômeno isolado em Santa Catarina, sendo observada em diversas regiões do Brasil. Esse movimento é frequentemente atribuído à expansão urbana, que avança sobre seus habitats naturais, e à busca por novas fontes de alimento e água em ambientes que, ironicamente, se tornam mais protegidos de predadores naturais. Parques com lagos, rios ou córregos, e áreas verdes com farta vegetação, tornam-se atrativos ideais para a espécie, que se adapta com facilidade a esses novos ecossistemas.
A ausência de predadores naturais em centros urbanos, como onças e jacarés, também contribui para o crescimento populacional das capivaras. A reprodução é relativamente rápida, com as fêmeas podendo ter até duas ninhadas por ano, com uma média de quatro filhotes por vez, o que pode levar a um aumento significativo da população em poucos anos, caso não haja manejo adequado.
Estratégias de coexistência e soluções a longo prazo
Diante da complexidade da situação, a busca por soluções eficazes exige uma abordagem multifacetada e colaborativa. Uma das primeiras etapas, geralmente recomendada por órgãos ambientais, é o monitoramento da população de capivaras. Isso envolve a contagem dos animais, a observação de seu comportamento e a identificação de áreas de maior ocorrência, servindo de base para um plano de manejo mais específico.
A educação ambiental desempenha um papel fundamental. Orientar a população sobre como coexistir com a fauna silvestre, a importância de não alimentar os animais (o que pode intensificar sua presença e alterar seu comportamento natural) e os cuidados preventivos contra carrapatos é crucial. Campanhas de conscientização sobre a febre maculosa, seus sintomas e a importância da procura médica rápida também são essenciais, conforme diretrizes do Ministério da Saúde.
Para casos em que a população de capivaras atinge níveis críticos ou representa um risco iminente, medidas de manejo mais ativas podem ser consideradas, sempre com a devida autorização e supervisão dos órgãos competentes. Isso pode incluir a relocação de indivíduos para áreas de conservação mais adequadas, a esterilização de parte da população para controle reprodutivo ou a implementação de barreiras físicas para direcionar o tráfego dos animais, visando minimizar o contato com humanos e veículos.
A articulação entre a prefeitura municipal, os órgãos ambientais estaduais (IMA/SC) e federais (IBAMA, ICMBio), e a comunidade é vital. A criação de um comitê de gestão que reúna essas partes interessadas pode facilitar a troca de informações, a tomada de decisões e a implementação de ações conjuntas, garantindo que as intervenções sejam embasadas cientificamente e respeitem tanto a legislação ambiental quanto a segurança e a saúde da população. Saiba mais sobre a gestão de fauna em áreas urbanas.
Enquanto a busca por uma solução duradoura prossegue, o parque de Santa Catarina se torna mais um exemplo da crescente necessidade de repensar a relação entre o ser humano e a natureza, especialmente em um cenário de urbanização contínua. A coexistência pacífica e segura entre humanos e a vida selvagem exige responsabilidade, conhecimento e ação coordenada de todos os envolvidos. Consulte o site do IBAMA para mais informações sobre fauna silvestre.
