O trabalho avaliou a efetividade de biomarcadores sanguíneos (BBMs, na sigla em inglês) como uma alternativa mais acessível e menos invasiva para o diagnóstico da doença neurológica, que afeta cerca de 2 milhões de pessoas no Brasil, de acordo com a Federação Brasileira das Associações de Alzheimer (Febraz).
Atualmente, os principais exames que detectam a DA são a punção lombar (un exame invasivo e doloroso, que consiste na coleta do líquido cefalorraquidiano na medula espinhal) e a tomografia por emissão de pósitrons (PTE).
Ambos os procedimentos são caros e de difícil acesso para a população de baixa renda ou residentes de regiões afastadas dos grandes centros urbanos.
O estudo destaca ainda que, apesar de dois terços dos casos de demência ocorrerem no Sul Global – ou seja, em países em desenvolvimento na América Latina, Ásia e África – a pesquisa de biomarcadores sanguíneos em casos de demência tem se concentrado principalmente em sociedades de países desenvolvidos.
Assim, a disparidade geográfica prejudica a compreensão científica da doença em indivíduos com baixa escolaridade e renda. Dois fatores de risco para o desenvolvimento de enfermidades neurológicas como o Alzheimer.
“É notável que clínicas de memória em países de alta renda, com amplos recursos, estimem que até um terço dos indivíduos com diagnóstico clínico de DA não apresentem características neuropatológicas da doença na autópsia”, apontam os pesquisadores. “Essa discrepância clínico-biológica destaca as limitações no diagnóstico de DA, ressaltando a necessidade de biomarcadores para melhorar a precisão do diagnóstico de DA em pacientes vivos”.
A equipe da UFRGS analisou amostras de sangue de 59 participantes, sendo 20 deles com comprometimento cognitivo, 22 com demência por Alzheimer e 17 com demência vascular – esta última causada por repetidas lesões vasculares no cérebro.
Todos foram avaliados clinicamente, a partir de entrevistas e revisão detalhada de seu histórico médico.
“Medimos biomarcadores no sangue e no líquido cefalorraquidiano (…) como beta-amiloide (Aβ)40, Aβ42, tau fosforilada (p-tau217), cadeia leve de neurofilamento (NfL) e proteína fibrilar ácida glial (GFAP)”, explicam os autores. Entre os BBMs analisados, o p-tau217 apresentou o melhor desempenho na detecção da doença no grupo de controle, cuja idade média era de 70,7 anos e predominantemente masculina (71,1%).
Apesar de viável e com potencial de ser realizado em qualquer lugar do Brasil, o exame de sangue de biomarcadores ainda não possui um valor baixo como um hemograma. Mas os especialistas acreditam que sua popularização poderá baixar significativamente seus custos nos próximos anos.
Além disso, os pesquisadores criaram a Iniciativa Brasileira de Biomarcadores para Doenças Neurodegenerativas, financiada pelo Ministério da Saúde e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
O objetivo agora é conduzir estudos mais aprofundados para comprovar a eficácia dos exames e, desta forma, conseguir a aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Isso para que no futuro, os exames de biomarcadores sanguíneos estejam disponíveis à população por meio do Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro.
Uma agência federal do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos aprovou um teste de biomarcadores sanguíneos, semelhante ao realizado pelos pesquisadores brasileiros.
Assim, tornou-se o primeiro exame do gênero disponível para uso em ambientes de atenção primária com intuito de auxiliar na avaliação e no diagnóstico da doença de Alzheimer. No caso da pesquisa desenvolvida pela empresa Roche, o biomarcador analisado foi o ptau-181.
Fonte: Gazeta do Povo
