Quase um ano depois da troca no comando da articulação política — assumida por Gleisi Hoffmann, ministra das Relações Institucionais, em março de 2025 —, o governo enfrentará período crítico de fevereiro a abril, quando metade dos ministros deixará os cargos para disputar eleições, incluindo a própria Gleisi, além de mudanças nas lideranças da Câmara e do Senado.
Para analistas e parlamentares ouvidos pela Gazeta do Povo, a opção por endurecer o discurso à esquerda, confrontar o Congresso e recorrer com frequência ao Supremo Tribunal Federal (STF) contribuiu para piorar o ambiente político, sem sinais de reversão.
Propostas consideradas prioritárias foram derrotadas ou empurradas para a frente, num quadro que aliados atribuem à reiterada fragilidade da articulação do Executivo. O próprio presidente reconheceu o problema em 15 de dezembro, ao afirmar que a equipe governista no Legislativo “não teve capacidade de convencer” parte dos congressistas.
A crise ganhou contornos públicos em novembro, quando os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), não compareceram à sanção do projeto de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. O gesto foi lido como sinal inequívoco de distanciamento do Congresso. O afastamento institucional seguiu em 2026, já que os presidentes das duas Casas também não participaram da cerimônia do governo em alusão aos três anos do 8 de janeiro, na qual Lula vetou integralmente o PL da Dosimetria.
Pesaram para esse cenário o descontentamento de Motta com o uso recorrente do STF para reverter decisões da Câmara e a irritação de Alcolumbre com a indicação de Jorge Messias ao STF, frustrando o desejo pelo nome do senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), ex-presidente do Congresso.
Motta cobrou respeito institucional e “acordos efetivos”, firmados com “transparência e seriedade”. Na oposição, a avaliação é de que o governo errou ao insistir na polarização e ao afastar o Congresso das decisões centrais. É a partir dessas falhas que a direita tem conseguido vitórias em votações, mesmo sendo minoria.
Diante do desgaste, o Planalto intensificou, desde o fim de 2025, negociações com partidos do Centrão, sobretudo o União Brasil, incluindo uma força-tarefa para acelerar a liberação de emendas parlamentares. Apesar disso, o ambiente segue marcado por um Congresso disposto a impor limites ao Executivo, prolongando a crise.
A entrada de Gleisi Hoffmann no comando da articulação política não melhorou a relação com o Congresso. Líderes do Centrão relatam, ao contrário, que o clima de confronto se agravou após a saída de Alexandre Padilha, deslocado para o Ministério da Saúde.
No fim de 2025, a relação entre Planalto e Congresso acumulou novos atritos, com vetos derrubados, atrasos na liberação de emendas e disputas sobre pautas sensíveis, como licenciamento ambiental, segurança pública e anistia. A atuação de Gleisi é descrita por parlamentares como “ideológica e pouco pragmática”, além de introduzir na negociação o tom de embate característico do PT.
Integrantes de União Brasil, Republicanos e PSD afirmam que o governo não cumpre acordos, falha na execução orçamentária e não oferece rumo claro às votações. A esperança de mudança com a saída de Padilha se dissipou rapidamente. Aconselhado por Gleisi, Lula manteve postura de enfrentamento, preferindo afagar a base ideológica e a polarização com a direita — sobretudo com Jair Bolsonaro (PL) — a fazer concessões.
Para Adriano Cerqueira, professor de Ciência Política do Ibmec-BH, Lula assumiu de forma explícita uma agenda de esquerda mais dura, reforçada por alianças como a aproximação com o deputado Guilherme Boulos (PSOL-SP), que se tornou ministro da Secretaria-Geral da Presidência. “À medida que o Centrão se afasta, essa imagem se consolida. Gleisi simboliza essa postura e não se destaca como articuladora”, diz.
Elton Gomes, professor da UFPI, avalia que a nova articulação fracassou, mas lembra que a deterioração da relação entre Executivo e Legislativo vem desde a crise do governo Dilma Rousseff (PT). O avanço do Congresso sobre o Orçamento, observa, esvaziou a Presidência. No terceiro mandato de Lula, o processo ganhou o componente da judicialização sistemática da política.
“O governo substituiu a negociação com o Parlamento pela busca de decisões no STF”, afirma. Para Gomes, a lógica do presidencialismo de coalizão foi trocada pela prioridade em manter maioria no tribunal. Nessa conjuntura, o governo só vence em votações no Congresso quando há convergência de interesses com os parlamentares.
O agravamento da crise ocorre em ano eleitoral, quando a dinâmica legislativa se torna ainda mais fragmentada e orientada por interesses regionais e pessoais. Sem reorganização efetiva da articulação, analistas veem risco elevado de novas derrotas relevantes ao longo de 2026.
Em paralelo, Lula prepara uma ampla reformulação da Esplanada dos Ministérios, com a possibilidade de ao menos 19 dos 38 ministros deixarem os cargos. A saída de Gleisi, prevista para abril, para concorrer à Câmara dos Deputados pelo Paraná, deve se somar à do ministro da Casa Civil, Rui Costa (PT), que planeja disputar o Senado pela Bahia.
Apesar de ter sido tratado por Lula como “primeiro-ministro”, Costa não conseguiu conter as crises com o Congresso e tampouco entregou os resultados esperados do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), principal vitrine de obras federais.
No Congresso, a reorganização atinge lideranças partidárias. Na Câmara, Lindbergh Farias (PT-RJ) deve deixar a liderança do partido, com Pedro Uczai (PT-SC) cotado para assumir. No Senado, há expectativa de mudanças após embates internos envolvendo o líder do governo, Jaques Wagner (PT-BA).
Para Marcus Deois, diretor da consultoria Ética, a saída de ministros-chave, começando por Ricardo Lewandowski (Justiça) em janeiro e Fernando Haddad (Fazenda), prevista para fevereiro, altera o equilíbrio interno do governo e reabre disputas por poder e direção estratégica. “A tendência é de uma Esplanada mais fragmentada”, afirma. “A pergunta central é se o governo está se reorganizando para vencer a eleição ou só para sobreviver politicamente até ela.”
Na reta final do mandato, Lula tem recorrido à pressão da opinião pública para tentar destravar sua agenda. Um exemplo foi a cerimônia esvaziada no Palácio do Planalto do 8 de janeiro, quando vetou o projeto da dosimetria e usou o evento para reforçar o discurso contra a anistia aos envolvidos nos atos de 2023 na Praça dos Três Poderes. O relator da proposta, Paulinho da Força (Solidariedade-SP), afirmou que o veto “rasgou a bandeira branca da paz”.
Campanhas do PT passaram a tratar o Congresso como “inimigo do povo” para angariar apoio popular a pautas do governo, estratégia intensificada após derrotas como a derrubada do aumento do IOF. Para parlamentares, longe de ajudar, o movimento apenas aprofunda o isolamento do Planalto.
Fonte: Gazeta do Povo
