A lógica terceiro-mundista dos militantes anti-Israel e anti-EUA

Os dias seguintes ao 7 de outubro mostraram quão profundamente essa visão de mundo se enraizou. No Canadá, no Reino Unido e nos Estados Unidos, manifestantes universitários e comentaristas denunciaram Israel como um “Estado colonizador”, insistiram que a “descolonização não é uma metáfora” e pediram a “globalização da Intifada”.

Frequentemente, há quem confunda essas ideias com o islamismo ou com resquícios do comunismo. A confusão é compreensível: os islamistas condenam Israel em termos teológicos, e os comunistas enxergam a política global como uma luta entre exploradores e explorados. Mas a condenação atual de Israel provém de uma linhagem diferente: uma convicção terceiro-mundista de que o Ocidente é o opressor permanente e que qualquer movimento alinhado contra o poder ocidental é inerentemente justo. É por isso que ativistas ocidentais, sem qualquer conexão com a região, entoam cânticos com o vocabulário da luta decolonial, em vez da jurisprudência islâmica ou da economia marxista. Eles canalizam uma visão de mundo nascida em Paris, Argel e Havana, refinada nas universidades ocidentais e agora aplicada indiscriminadamente a conflitos moldados como “Ocidente versus não-Ocidente”.

Após o 7 de outubro, esse roteiro moral terceiro-mundista fundiu-se perfeitamente à linguagem acadêmica decolonial. O sentimento anti-Israel reorganizou-se em torno de uma ideia central: a descolonização tornou-se tanto a explicação governante quanto a conclusão política desejada. Israel só poderia ser visto como a última “colônia de povoamento” do Ocidente, e os palestinos como os últimos representantes autênticos da resistência global. A história, a política e as complexidades internas da região deixaram de importar. As categorias predeterminaram o resultado.

Historicamente, a descolonização referia-se à retirada dos impérios europeus e ao nascimento de novos Estados. Esse significado não desapareceu, mas hoje serve de pano de fundo para uma doutrina muito mais ambiciosa: uma teoria global do poder que divide o mundo entre estruturas ocidentais opressoras e as comunidades que as resistem. Desvinculada da cronologia, ela opera como uma ideologia universal — aplicada a tudo, desde contratações universitárias e políticas de fronteira até a curadoria de museus e conflitos armados.

Este roteiro universal — opressor versus oprimido, colono versus indígena, colonizador versus colonizado — explica por que as acusações contra Israel viajam com tanta facilidade de Roma a Londres e Nova York. Se os detalhes se ajustam ou não ao modelo, torna-se irrelevante; o modelo fornece o veredicto moral. Israel é condenado não pelo que faz, mas pelo que se presume que ele represente. O terceiro-mundismo fornece o instinto emocional; a descolonização fornece o vocabulário conceitual.

As implicações disso para os Estados Unidos são profundas. A mesma estrutura que condena Israel também condena o poder americano: Israel como a personificação local da dominação ocidental, e os EUA como a estrutura global que a sustenta. O vocabulário usado para atacar Israel — “colono”, “colonial”, “imperial”, “racial” — é o mesmo usado para atacar os Estados Unidos. No imaginário terceiro-mundista, a América é o último ator imperial e Israel sua extensão mais visível. A hostilidade em relação a Israel torna-se um substituto socialmente aceitável para a hostilidade contra a identidade, as instituições e a liderança global americana.

Grande parte da visão de mundo decolonial contemporânea remonta ao realinhamento intelectual do final dos anos 1960, quando o historiador marxista Maxime Rodinson publicou Israel: Um Estado de Colonização de Povoamento? na revista de Jean-Paul Sartre, Les Temps Modernes, pouco após a Guerra dos Seis Dias. Rodinson não se limitou a criticar as políticas israelenses. Ele ofereceu uma reinterpretação estrutural do próprio sionismo, argumentando que se tratava de um movimento colonial indistinguível da expansão europeia ultramarina. Se o sionismo é colonialismo, Israel torna-se ilegítimo por definição e a violência palestina torna-se, por padrão, anti-imperialista.

A abordagem marxista estrutural de Rodinson ignorou fatos históricos básicos. Os judeus eram nativos da região; sua migração ocorreu depois de perseguições e remoções forçadas; e o sionismo era um renascimento nacional, não uma extensão de um império europeu. No entanto, seu modelo forneceu aos estudos de Oriente Médio uma grande narrativa estrutural. Edward Said absorveu as categorias de Rodinson e as estendeu para uma acusação abrangente contra o próprio conhecimento ocidental. Com a publicação de Orientalismo por Said, em 1978, o “colonialismo” tornou-se a chave mestra para interpretar tudo, da literatura à política externa.

Nas décadas seguintes, os estudos de “colonialismo de povoamento” consolidaram-se como disciplina. Paralelamente, surgiu o conceito de “colonialismo por procuração”. Evocado pela primeira vez por Indira Gandhi em 1983 para descrever como a dependência tecnológica e econômica poderia mimetizar o domínio colonial, o termo foi reaproveitado por antropólogos como Scott Atran para argumentar que o apoio britânico à imigração sionista tornava os judeus “colonizadores por procuração” da Palestina. Se os judeus não eram colonizadores diretos, deveriam ser agentes coloniais; se as evidências históricas não sustentavam a acusação, a acusação evoluía. Assim como o colonialismo de povoamento, o colonialismo por procuração funcionou como uma ferramenta projetada para deslegitimar a soberania judaica.

Sua lógica interna baseava-se no que Atran chamou de “a questão da terra”: a dominação começa quando um povo é arrancado de sua relação orgânica com o território, o que enfraquece qualquer reivindicação futura de soberania. Sob essa lente étnica, os judeus ashkenazim e russos não teriam uma compreensão autêntica do “Oriente” onde se inseriram; já os judeus vindos do próprio Oriente Médio até complicavam o esquema colonial, mas não chegavam a rompê-lo. No fim das contas, a questão não era quem era nativo ou não, mas sim se os judeus poderiam ser rotulados como estrangeiros.

O sociólogo Ran Greenstein promoveu uma visão semelhante em Zionism and Its Discontents, descrevendo a presença judaica na Palestina do Mandato como uma “colônia por procuração”, com a Grã-Bretanha como o colonizador primário e os judeus como seus agentes demográficos. Nesta leitura, a Declaração Balfour torna-se uma ferramenta de dominação britânica, em vez de uma medida diplomática emitida dentro de um sistema imperial em colapso.

Essa lógica sustenta os slogans atuais de que Israel foi “construído em terra roubada” e que o sionismo está ligado à “supremacia branca, capitalismo, imperialismo e colonialismo”. Refugiados judeus fugindo de pogroms e genocídios são transformados em agentes de interesses sionistas de elite alinhados a Londres, e o intercâmbio econômico da era do controle britânico é visto como extração capitalista. Uma vez que Israel é definido como uma criação imperial, a violência palestina torna-se uma resistência anti-imperialista legítima, e o Hamas pode ser designado como o herdeiro da Argélia, Vietnã, Cuba e Nicarágua.

Com o tempo, as acusações se multiplicaram. Israel não era mais apenas uma colônia de povoamento ou por procuração, mas, aos olhos de vários acadêmicos, uma colônia extrativista que explora recursos; uma colônia jurídica que impõe jurisprudência estrangeira; uma colônia racial que fabrica hierarquias; e até uma colônia biopolítica que regula a vida através da vigilância. O modelo gera essas interpretações quase automaticamente. Cada novo rótulo reforça a metafísica subjacente: a opressão como uma estrutura total expressa em formas sobrepostas. Quanto mais categorias se anexam a Israel, mais o país parece personificar a arquitetura da dominação ocidental.

O ambiente acadêmico encoraja esse acúmulo. Em uma cultura universitária moldada pelo pós-estruturalismo e pela teoria crítica, o acréscimo de conceitos é tido como um aprofundamento da análise. Uma vez que Israel é posicionado como a personificação do poder opressor, todo termo disponível torna-se um instrumento de crítica, mesmo quando filosoficamente incompatível com outros termos. Os incentivos políticos apontam na mesma direção: uma acusação total é mais fácil de justificar moralmente do que uma parcial, e o colapso das distinções fortalece a mobilização. O resultado é uma névoa conceitual que obscurece em vez de esclarecer, gerando uma ilusão de profundidade intelectual enquanto produz confusão sobre o que está sendo descrito.

Este catálogo em expansão baseia-se em uma antiga fórmula revolucionária que tomou sua forma mais influente durante a Guerra de Independência da Argélia (1954-1962). A Frente de Libertação Nacional (FLN) derrotou a França militarmente; mas também transformou a maneira como intelectuais ocidentais falavam sobre poder, legitimidade e violência. A partir do final dos anos 1950, a apresentação do conflito pela FLN como uma luta entre uma população de colonos estrangeiros e os nativos eletrizou pensadores franceses e europeus. Sartre abraçou essa narrativa em 1960, descrevendo a violência da FLN como uma força purificadora, e Frantz Fanon a canonizou em Os Condenados da Terra (1961), retratando a violência revolucionária como o único caminho para a libertação psíquica e política.

Estas obras estabeleceram a base ideológica do terceiro-mundismo. As categorias que elas articularam — o colono ilegítimo, o nativo puro, o desmantelamento das instituições do colonizador e a moralidade inerente da resistência — moldaram gerações de estudiosos pós-coloniais na França, Grã-Bretanha e Estados Unidos.

Ao absorver esse vocabulário derivado da FLN, a teoria decolonial define simbolicamente Israel como a nova França e os palestinos como os novos argelinos. Uma vez que um conflito é moldado desta forma, a negociação torna-se impossível: a força colonizadora só pode ser desmantelada, nunca reconhecida. É por isso que os apelos contemporâneos para “descolonizar a Palestina” ecoam a retórica usada contra a França em 1961, e por que a experiência da Argélia — e não a do Irã — guia tanto a teoria acadêmica quanto o instinto ativista.

A narrativa da FLN alinhou-se perfeitamente às sensibilidades que passaram a dominar os estudos de Oriente Médio nos EUA. À medida que o campo se expandia, os departamentos adotaram os binários estruturais de Rodinson como padrões metodológicos. A afirmação de Said de que o conhecimento ocidental era, ele próprio, um empreendimento colonial encorajou acadêmicos a tratar Israel não como um Estado normal, mas como uma expressão destilada da ideologia imperial.

Este clima moldou figuras como Karen Brodkin, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), que negou a continuidade histórica que liga os judeus à terra de Israel e retratou o Estado israelense como inerentemente racista; e Joseph Massad, de Columbia, que classificou o sionismo como uma ideologia racial europeia. Esses e outros acadêmicos semelhantes reduziram as complexidades do Oriente Médio às certezas morais do pensamento decolonial. O modelo da FLN, moralizado nos anos 1960, foi naturalizado nas salas de aula americanas nas décadas de 1990 e 2000.

Nesta visão, uma organização terrorista como o Hamas passa a ser vista como a expressão armada de uma luta de libertação nacional. Judith Butler tornou essa lógica explícita quando descreveu os ataques de 7 de outubro como “um ato de resistência armada”, rejeitando as designações de terrorismo e antissemitismo, e retratando o assalto como uma insurreição contra “um aparato estatal violento”. A questão deixa de ser o que o Hamas realmente fez e passa a ser o que se presume que Israel representa. E como Israel é posicionado como o posto avançado do poder imperial americano, defender o Hamas torna-se, quase automaticamente, um gesto moral dirigido contra os próprios Estados Unidos.

Políticos e ativistas formados nesses ambientes intelectuais emergiram fluentes no idioma do colonialismo de povoamento e da libertação terceiro-mundista. Em 7 de outubro, a imaginação decolonial já havia migrado das margens da academia para a vida pública. Os slogans que surgiram poucas horas após os ataques eram o produto de um sistema intelectual construído ao longo de décadas. O marxismo estrutural de Rodinson, as teorias de colonialismo de povoamento e por procuração e o legado da FLN coalesceram em uma linguagem política na qual Israel funciona como um símbolo condensado da dominação ocidental.

Uma figura como Zohran Mamdani é o resultado de uma geração moldada pela teoria pós-colonial. Ele não é nem islamista, nem comunista. Sua política está enraizada em uma formação produzida pelo casamento das sensibilidades terceiro-mundistas com a teoria pós-colonial, forjada no brilho residual de Argel e Paris, e institucionalizada nos programas de pós-graduação americanos. Ele faz parte da primeira coorte de políticos americanos formados pela ascendência intelectual desta visão de mundo.

Sua política deriva diretamente disso. Tudo é interpretado através do contraste entre império e libertação: o modelo da FLN universalizado. Israel torna-se o centro imaginado do poder ocidental; a militância palestina, uma reprise da revolta anticolonial. O foco não é a política israelense, mas a utilidade simbólica de Israel. Quando Mamdani fala sobre Israel, ele não está apresentando um argumento local, mas fazendo uma crítica civilizacional do Ocidente por meio do exemplo mais conveniente à mão.

No pensamento decolonial, os Estados Unidos não são meramente aliados de Israel, mas a própria estrutura que torna Israel possível — o império maior, a república colonizadora global, o arquiteto da modernidade racializada. Israel ganha sua carga ideológica ao ser caracterizado como a extensão desse projeto americano. Quando políticos como Mamdani descrevem Israel como colonial, eles condenam os Estados Unidos como o motor mais profundo da injustiça. Não é surpresa, portanto, que a retórica decolonial se mova rapidamente de Gaza para o policiamento, o capitalismo, a imigração, as fronteiras e a Constituição.

Pela mesma razão, a imaginação decolonial não consegue registrar o 7 de outubro como uma atrocidade em seus próprios termos. Reconhecer que Israel foi a vítima interromperia a narrativa que define tanto Israel quanto os Estados Unidos como inerentemente opressores. O sistema interpretativo decide antecipadamente o que os fatos podem significar. Reconhecer a complexidade moral no caso de Israel exigiria admitir complexidade no caso da América — e a visão de mundo terceiro-mundista não pode absorver essa possibilidade.

Zineb Riboua é pesquisadora do Centro para Paz e Segurança no Oriente Médio do Hudson Institute.

©2026 City Journal. Publicado com permissão. Original em inglês:  The Third-Worldist Logic

Fonte: Gazeta do Povo


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