A atenção e o instinto materno, aliados a um fenômeno óptico simples capturado por uma câmera fotográfica, foram determinantes para que uma mãe identificasse precocemente um caso de retinoblastoma, um tipo raro de câncer ocular, em seu filho de apenas oito meses. A imagem, tirada com o uso do flash, revelou um reflexo branco incomum nos olhos do bebê, um sinal crucial que levou ao diagnóstico e à rápida intervenção médica, aumentando significativamente as chances de cura do pequeno.
- A revelação inesperada: o reflexo branco na pupila
- Entendendo o retinoblastoma: um câncer ocular infantil
- Sintomas além do reflexo fotográfico: sinais de alerta importantes
- O papel crucial do diagnóstico precoce e as taxas de cura
- Opções de tratamento e centros especializados
- Vigilância e informação: aliados na saúde ocular infantil
Este evento sublinha a importância da vigilância parental e do conhecimento sobre os sinais e sintomas de doenças oculares infantis, em especial o retinoblastoma, que, quando detectado em estágios iniciais, apresenta prognósticos extremamente favoráveis, com taxas de cura que podem ultrapassar os 90% em muitos casos.
A revelação inesperada: o reflexo branco na pupila
A história da mãe que percebeu algo diferente nos olhos do bebê através de uma fotografia não é isolada. Em muitas situações, o reflexo pupilar alterado capturado pelo flash da câmera se torna o primeiro indicativo de retinoblastoma, uma condição conhecida clinicamente como leucocoria, ou “pupila branca”. Diferente do comum “olho vermelho” observado em fotos com flash — que é um reflexo normal da luz na retina cheia de vasos sanguíneos — a leucocoria é um sinal de alerta que merece investigação imediata.
Quando a luz do flash incide sobre um olho saudável, ela é refletida pela coroide e pelos vasos sanguíneos da retina, resultando na coloração avermelhada. No entanto, na presença de uma massa tumoral, como o retinoblastoma, essa reflexão é obstruída ou alterada, manifestando-se como um brilho branco ou amarelado na pupila, semelhante a um “olho de gato”. Este fenômeno, embora simples, tem sido um meio de detecção valioso e, por vezes, a única pista visual para os pais de que algo está errado com a saúde ocular de seus filhos pequenos, que ainda não conseguem expressar desconforto ou alterações visuais.
Entendendo o retinoblastoma: um câncer ocular infantil
O retinoblastoma é o câncer intraocular primário mais comum em crianças, afetando predominantemente bebês e crianças com menos de cinco anos de idade. Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o retinoblastoma representa cerca de 3% de todos os cânceres pediátricos no Brasil e é o tumor ocular mais frequente nessa faixa etária. A incidência global estimada varia entre 3 a 4 casos por milhão de crianças com menos de 15 anos, com aproximadamente 400 novos diagnósticos anualmente no país.
Este tipo de tumor tem origem nas células da retina, a camada sensível à luz na parte de trás do olho. Pode ser unilateral, afetando apenas um olho, ou bilateral, manifestando-se em ambos os olhos. Aproximadamente 60% dos casos são unilaterais e não hereditários, resultantes de uma mutação espontânea. Os 40% restantes são bilaterais e, em grande parte, hereditários, associados a uma mutação genética que pode ser transmitida. Para informações mais detalhadas sobre a doença e suas características, é possível consultar o material informativo do INCA.
Sintomas além do reflexo fotográfico: sinais de alerta importantes
Embora a leucocoria seja o sintoma mais comum e frequentemente o primeiro a ser notado, especialmente em fotografias, o retinoblastoma pode apresentar outros sinais que os pais e cuidadores devem estar atentos. Reconhecer esses indícios é fundamental para buscar atendimento médico especializado sem demora.
Outros sintomas importantes incluem:
- Estrabismo (olho vesgo): Um desvio em um dos olhos, para dentro ou para fora, é um sintoma comum do retinoblastoma, indicando que o tumor pode estar afetando a visão e o alinhamento ocular.
- Vermelhidão e inchaço nos olhos: Em alguns casos, o olho afetado pode apresentar inflamação, vermelhidão persistente ou inchaço sem uma causa aparente.
- Perda de visão: Dificuldade em seguir objetos ou reagir a estímulos visuais, embora mais difícil de identificar em bebês, pode ser um sinal de comprometimento da visão.
- Nistagmo: Movimentos oculares involuntários e repetitivos.
- Dor ocular: Embora menos comum como sintoma inicial, pode ocorrer em estágios mais avançados.
É crucial que qualquer um desses sinais seja avaliado por um oftalmologista pediátrico imediatamente. A Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica (SOBOPE) e o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) ressaltam a importância dos exames de rotina, como o “teste do olhinho” (reflexo vermelho), realizado já na maternidade e repetido nas consultas pediátricas, para a detecção precoce de anomalias oculares.
O papel crucial do diagnóstico precoce e as taxas de cura
O sucesso no tratamento do retinoblastoma está diretamente ligado à rapidez do diagnóstico. Quando identificado em estágios iniciais, antes que o tumor cresça significativamente ou se espalhe para outras partes do corpo, as taxas de cura são extremamente elevadas, podendo chegar a 95% ou mais, com a preservação da visão em muitos casos. A detecção tardia, por outro lado, pode levar à necessidade de tratamentos mais agressivos, como a remoção cirúrgica do olho (enucleação), e aumenta o risco de metástase, o que compromete significativamente o prognóstico e a sobrevida do paciente.
O diagnóstico definitivo é realizado por meio de um exame oftalmológico completo, incluindo a fundoscopia (exame do fundo do olho), geralmente sob sedação em crianças pequenas. Exames complementares como ultrassonografia ocular, ressonância magnética (RM) ou tomografia computadorizada (TC) são utilizados para avaliar a extensão do tumor e descartar a presença de metástases. Esses exames são essenciais para o estadiamento da doença e a escolha do tratamento mais adequado.
Opções de tratamento e centros especializados
O tratamento do retinoblastoma evoluiu consideravelmente nas últimas décadas, com abordagens personalizadas que visam erradicar o tumor e preservar ao máximo a visão e a estrutura do olho. As opções terapêuticas incluem:
- Quimioterapia: Pode ser sistêmica, intra-arterial (diretamente na artéria que irriga o olho) ou intravítrea (diretamente no humor vítreo do olho).
- Terapias focais: Incluem a fotocoagulação a laser, crioterapia (congelamento do tumor) e termoterapia transpupilar (TTT), utilizadas para tumores menores.
- Radioterapia: Pode ser externa ou por braquiterapia (implante de placas radioativas próximas ao tumor).
- Enucleação: A remoção cirúrgica do olho, indicada em casos de tumores muito grandes, que não respondem a outras terapias, ou quando há risco de disseminação.
No Brasil, centros especializados em oncologia pediátrica, como o GRAACC em São Paulo e o Hospital de Amor em Barretos, são referências no tratamento do retinoblastoma e outros cânceres infantis. Essas instituições contam com equipes multidisciplinares e tecnologias avançadas para oferecer o melhor cuidado aos pequenos pacientes.
Vigilância e informação: aliados na saúde ocular infantil
A história do bebê diagnosticado a partir de uma foto com flash serve como um poderoso lembrete da importância da vigilância ativa dos pais e da disseminação de informações sobre saúde ocular infantil. Profissionais de saúde enfatizam que, ao menor sinal de anormalidade nos olhos de uma criança, a busca por avaliação médica especializada é inegociável.
Manter a carteira de vacinação e saúde da criança atualizada, com todos os exames de rotina em dia, incluindo o “teste do olhinho” em todas as consultas pediátricas, é uma medida preventiva fundamental. A informação é uma ferramenta poderosa; quanto mais pais e cuidadores estiverem cientes dos sinais e sintomas do retinoblastoma e de outras doenças oculares, maior será a chance de um diagnóstico precoce e, consequentemente, de um futuro mais saudável para as crianças afetadas.



