A investigação analisou registros de veteranos norte-americanos. Ao acompanhar o grupo predominantemente masculino e com média de 60 anos, os cientistas constataram que os pacientes com apneia apresentavam quase o dobro da probabilidade de desenvolver doença de Parkinson em comparação àqueles sem o distúrbio do sono.
A apneia do sono é um transtorno que causa pausas na respiração enquanto o paciente dorme, piorando a qualidade do sono. O problema é mais comum do que se pensa: a apneia do sono pode atingir mais de 30% da população brasileira adulta.
Já a doença de Parkinson é uma condição neurológica crônica resultante da morte acelerada dos neurônios que produzem a dopamina, um mensageiro químico importante para ações motoras. Segundo a Academia Brasileira de Neurologia, a doença afeta cerca de 6 milhões de pessoas no mundo, principalmente entre homens idosos.
Embora a origem exata do Parkinson envolva uma combinação de genética e fatores ambientais, o novo estudo sugere que a má qualidade do sono é um componente relevante neste cenário. Identificar e tratar a apneia pode ser uma forma de proteção neurológica.
A apneia obstrutiva do sono ocorre quando os músculos da garganta relaxam excessivamente durante o repouso e bloqueiam as vias aéreas, impedindo a passagem do ar para os pulmões.
Para sobreviver à falta de oxigênio, o cérebro força o corpo a acordar repetidamente para retomar a respiração, muitas vezes sem que a pessoa perceba — os chamados “microdespertares”. O sono fragmentado impede que o indivíduo atinja os estágios profundos, fundamentais para a “limpeza” de toxinas acumuladas no sistema nervoso central durante o dia.
O distúrbio se torna mais frequente após os 40 anos devido ao envelhecimento natural dos tecidos. A musculatura da faringe perde tônus e firmeza com o passar do tempo, facilitando o colapso da garganta. Além disso, alterações metabólicas e eventual ganho de peso podem aumentar o volume de tecido no pescoço, estreitando a passagem de ar.
As consequências ultrapassam uma noite mal dormida. Rubens Giberty, neurologista especialista em doença de Parkinson, alerta que o problema gera:
A condição também afeta a saúde cardiovascular. O esforço constante para respirar à noite eleva a pressão arterial e o risco de problemas cardíacos. O corpo permanece em estado de alerta, impedindo o relaxamento profundo necessário para a restauração do organismo.
Para evitar os danos, a Academia Americana de Neurologia destaca o uso do CPAP (Continuous Positive Airway Pressure) como tratamento principal. O aparelho fornece ar pressurizado por meio de uma máscara, mantendo as vias aéreas abertas mecanicamente e prevenindo o desgaste cerebral causado pelas interrupções do sono.
A análise dos prontuários de mais de 11 milhões de veteranos trouxe, pela primeira vez, embasamento para os pesquisadores entenderem qual é a relação entre apneia do sono e a doença de Parkinson.
O estudo identificou que 13,7% dos participantes receberam o diagnóstico de apneia entre 1999 e 2022. Ao verificar a saúde desses indivíduos seis anos após o diagnóstico do distúrbio do sono, os pesquisadores notaram um padrão alarmante.
Os veteranos com apneia apresentavam quase o dobro da probabilidade de desenvolver a doença de Parkinson em comparação àqueles que respiravam normalmente à noite.
Para garantir a precisão, os cientistas isolaram outras variáveis. A associação se manteve mesmo após descontar fatores como idade, índice de massa corporal (IMC), diabetes, hipertensão e tabagismo. Curiosamente, o efeito nocivo da apneia foi notavelmente mais forte entre as mulheres veteranas.
O ponto central da pesquisa envolve a oxigenação cerebral. Lee Neilson, neurologista da OHSU e autor principal, explica: “Se você para de respirar e o nível de oxigênio não está normal, seus neurônios provavelmente também não estão funcionando normalmente”.
Neilson complementa que o efeito cumulativo é perigoso: “Somando isso noite após noite, ano após ano, pode explicar por que resolver o problema usando CPAP pode gerar alguma resistência contra doenças neurodegenerativas, incluindo Parkinson”.
O estudo da OHSU não comprovou que a apneia do sono é a causa direta da doença de Parkinson. O que a pesquisa identificou foi uma forte associação estatística, em que a apneia atua como um fator de risco agravante. Ela cria um ambiente interno (inflamação e falta de oxigênio) que favorece o desenvolvimento da doença em quem já pode ter predisposição.
Da mesma forma, os cientistas ressaltam que o uso do CPAP não é uma garantia de prevenção total do Parkinson. O estudo indica que o tratamento está associado a uma probabilidade menor de desenvolver a doença, sugerindo que cuidar do sono é uma estratégia válida de redução de danos e proteção da saúde cerebral.
O levantamento trouxe um dado de esperança: o tempo de resposta importa. Aqueles que iniciaram o uso do CPAP (aparelho que envia fluxo de ar contínuo) dentro de dois anos após o diagnóstico tiveram cerca de 30% menos chance de desenvolver Parkinson.
Em números absolutos, o tratamento rápido representou 2,3 casos a menos da doença a cada 1.000 pessoas. Os pacientes que demoraram mais de dois anos para aderir ao CPAP não apresentaram essa redução estatística de risco, igualando-se aos não tratados.
O pesquisador Gregory D. Scott, do Sistema de Saúde VA de Portland, reforça a importância da ação: “Embora nosso estudo tenha encontrado um risco aumentado (…), a boa notícia é que as pessoas podem fazer algo a respeito, usando CPAP assim que forem diagnosticadas”.
Uma limitação apontada pelos autores é que o estudo baseou-se na posse do equipamento. Não foi possível verificar se os pacientes utilizavam o CPAP todas as noites conforme a prescrição, o que reforça a necessidade de disciplina no tratamento.
A medicina classifica a apneia em três categorias: Apneia Obstrutiva do Sono (AOS), Apneia Central e Apneia Mista. O estudo recente focou especificamente na AOS, que é a forma mais comum e ocorre pelo bloqueio físico das vias aéreas.
Estima-se que a AOS afete 1 bilhão de adultos globalmente. Desses, cerca de 425 milhões sofrem com quadros moderados ou severos. A gravidade é medida pelo índice de apneia-hipopneia: acima de 15 eventos por hora (moderada) ou mais de 30 eventos por hora (severa).
Pacientes com apneia central (onde a falha é no comando cerebral da respiração) ou mista possuem mecanismos diferentes, embora a falta de oxigênio seja um denominador comum prejudicial.
Muitos pacientes convivem com a apneia por anos sem saber, pois os sintomas ocorrem enquanto dormem ou são confundidos com o cansaço da rotina. A avaliação médica é recomendada caso a pessoa apresente:
O tratamento precoce da apneia, seja com CPAP ou outras terapias indicadas por especialistas, mostra-se uma alternativa eficiente para proteger a saúde cognitiva na maturidade.
Para quem se identifica com os sintomas, o passo mais inteligente é buscar um médico do sono. O diagnóstico correto transforma uma condição de risco em uma oportunidade de viver com mais energia e segurança neurológica.
Fonte: Gazeta do Povo



