O dilema da governabilidade: entre ativismo e responsabilidade
O cenário político brasileiro se revela um complexo tabuleiro, onde os movimentos de figuras-chave indicam uma crescente tensão entre a busca por poder, a instabilidade institucional e a crucial responsabilidade fiscal. A cada semana, observamos um xadrez de ações e reações que moldam o futuro do país, muitas vezes à revelia de princípios que deveriam ser caros à boa governança.
Economia em xeque: a autonomia e o custo fiscal
O presidente Lula, em sua persistente cruzada por mais espaço fiscal e maior controle estatal, tem tensionado a relação com o Congresso e o mercado. Sua insistência em reavaliar a autonomia do Banco Central, conforme se observa nas discussões sobre o arcabouço fiscal, sugere uma intervenção que pode minar a confiança dos investidores. O senador Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, tem a difícil tarefa de defender a estabilidade institucional e os pilares de uma política monetária independente, um contraponto necessário às pressões do Executivo que, se cedidas, poderiam comprometer seriamente a credibilidade econômica do país.
Nessa mesma linha de descalabro fiscal, a proposta da “PEC da Anistia” surge como um verdadeiro atentado à saúde financeira do Estado e à moralidade pública. O presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), Ministro Bruno Dantas, alertou para um impacto devastador de R$ 100 bilhões nos cofres públicos. Anistiar dívidas de tamanha monta é premiar a irresponsabilidade e onerar o contribuinte honesto, além de desvirtuar completamente a noção de probidade. É uma prática que, historicamente, já vimos gerar precedentes perigosos e fragilizar a arrecadação, mostrando um descaso inaceitável com o dinheiro público e a disciplina fiscal tão defendida por esta coluna.
Os limites do poder e o ativismo judicial
Paralelamente à arena econômica, o campo jurídico segue aceso, com crescentes questionamentos sobre os limites da atuação do Supremo Tribunal Federal (STF). O que se convencionou chamar de “ativismo judicial”, personificado em algumas decisões do ministro Alexandre de Moraes, tem gerado desconforto em diversas esferas, incluindo setores do próprio Ministério Público, cujo Procurador-Geral da República, ainda que de forma cautelosa, precisa equilibrar-se para reafirmar a constitucionalidade e os ritos processuais. A preocupação central reside na diluição das competências dos poderes e na insegurança jurídica gerada por interpretações que, por vezes, parecem extrapolar o texto constitucional, tensionando a balança republicana e exigindo uma reflexão profunda sobre o papel de cada instituição.
O xadrez eleitoral e as articulações para 2026
Enquanto o país enfrenta desafios estruturais e institucionais, a política de bastidores segue seu curso, com vistas às próximas disputas eleitorais. O prefeito de Salvador, Bruno Reis, exemplifica bem essa movimentação estratégica, já articulando sua sucessão municipal e pavimentando o terreno para 2026. Essa busca incessante por alianças e apoios, muitas vezes pragmática e desprovida de alinhamentos ideológicos claros, revela a essência do nosso sistema político: a perpetuação no poder. É um jogo de soma zero onde a governabilidade real e a execução de políticas públicas efetivas frequentemente ficam em segundo plano, obscurecidas pela lógica eleitoral.
Em suma, os movimentos de nossos agentes políticos expõem uma fragilidade institucional preocupante. Seja na tentativa de controlar a economia, na expansão dos limites judiciais ou na antecipação da corrida eleitoral, falta um compromisso inabalável com a responsabilidade fiscal, a clareza institucional e o respeito à separação de poderes. É imperativo que os líderes busquem a estabilidade, a previsibilidade e a adesão aos princípios que garantem o desenvolvimento sustentável e a verdadeira governabilidade do país.
Fonte: Coluna de opinião – Notícia SC



