Morto aos 68 anos, vítima de um câncer, Adams foi o criador da clássica tirinha “Dilbert” — famosa por mostrar como o excesso de processos e métricas no mundo corporativo pode transformar o cotidiano numa comédia involuntária.
Mas o que o noticiário recente sobre Scott Adams tem destacado não é exatamente seu legado humorístico. O foco está em sua última cartada: o anúncio de sua conversão ao cristianismo. A decisão não foi fundamentada em uma experiência espiritual marcante, e sim numa espécie de cálculo pragmático — a chamada Aposta de Pascal.
No dia 1º, o cartunista escreveu uma mensagem de despedida, divulgada ontem por sua mulher. “Não sou um crente, mas tenho que admitir que admitir que o cálculo de risco e recompensa de fazê-lo [professar sua fé em Cristo] parece atrativo”, afirmou, antes de anunciar: “Aceito Jesus Cristo como meu Senhor e Salvador e aguardo passar a eternidade com ele”.
E completou, com sua típica ironia: “A questão de eu não ser crente [anteriormente] será rapidamente resolvida se eu acordar no céu”.
Criado pelo matemático e pensador francês Blaise Pascal (1623-1662), esse argumento filosófico propõe que ter fé é a escolha mais racional diante da incerteza sobre a existência de Deus.
A “equação” não tenta provar que Deus existe. Para Pascal, porém, o mais inteligente é apostar que sim. Mas por quê?
A lógica da aposta é simples. Se Deus existir e você acreditar, o prêmio é o ganho da vida eterna, enquanto o custo de estar errado seria apenas a perda dos prazeres mundanos.
A descrença, por sua vez, só oferece ganhos passageiros, mas pode resultar numa perda infinita caso Deus seja real — o que torna a fé o único cálculo racional para maximizar benefícios e evitar riscos irreversíveis.
O próprio Scott Adams explicou, em seu podcast, antes de morrer: “Se não há nada depois, eu não perco nada. Se há algo, e o modelo cristão estiver mais próximo disso, eu ganho”.
A aposta de Adams, no entanto, vem dividindo opiniões na comunidade cristã. Afinal, o artista não falou em arrependimento ou amor divino — apenas em risco e retorno.
Um comentarista anônimo postou no X que ele transformou a fé em sua “última decisão estratégica de fim de carreira”. Para outro usuário da rede, Adams tentou “hackear a eternidade”.
Analistas sérios também questionaram a mensagem de Scott Adams. A jornalista Megan Basham, do jornal conservador The Daily Wire, foi dura em sua opinião: “O ladrão na cruz não disse ‘Vou nessa como uma opção de emergência’. Ele realmente creu”.
Igualmente incisivo, o pastor John McGlone (conhecido por seus projetos de pregação itinerante pelos EUA) afirmou que a fé não é real se for “apenas por via das dúvidas”.
Para esses e outros críticos, há uma distinção fundamental: a vida eterna exige mais do que um cálculo racional — demanda uma “transformação do coração”. Eles citam Romanos 10:9, que relaciona a fé à declaração sincera de Jesus como Senhor e à crença em sua ressurreição.
Mas também houve celebração: veículos e colunistas cristãos saudaram a decisão de Scott Adams como uma vitória da graça divina, justificando que a porta do céu está sempre aberta, independentemente da motivação.
Joel Berry, editor do site Babylon Bee e comentarista da Fox News, afirmou, antes da morte de Adams: “Ele diz que está fazendo a Aposta de Pascal e se convertendo ao cristianismo. Louvado seja Jesus. Estamos todos orando por você, Scott”.
Já o tradicional jornal National Catholic Register publicou o artigo “No dia de sua morte, a fé em Cristo do famoso cartunista Scott Adams se tornou pública”, em que considerou a carta de despedida de Adams um testemunho aberto de adesão ao cristianismo.
Ao “mandar seu currículo para o paraíso” (como disse outro comentarista desconhecido), Adams deixou mais do que tiradas sobre escritórios e colegas de trabalhos. O criador de “Dilbert” lançou uma última provocação, dessa vez sobre a eternidade — com a mistura de humor e lógica que sempre foi sua marca.
Fonte: Gazeta do Povo



