Uma tragédia chocou a cidade de Balneário Piçarras, no Litoral Norte de Santa Catarina, no último sábado, 17 de fevereiro. Daiane Simão da Costa, de 35 anos, teve sua vida ceifada por disparos de arma de fogo desferidos por seu ex-companheiro, em um ato de violência que repercutiu profundamente na comunidade. O crime, classificado como feminicídio, ocorreu em um local de simbolismo amargo: em frente a um batalhão da Polícia Militar, levantando questões cruciais sobre a segurança e a eficácia das medidas de proteção à mulher no Brasil.
Os fatos se desenrolaram na manhã de sábado, quando Daiane foi abordada e alvejada pelo agressor. A cena, presenciada por pessoas nas proximidades, denota a audácia e a brutalidade com que atos de violência de gênero podem ocorrer, mesmo em locais que deveriam ser de refúgio e proteção. A Polícia Militar foi acionada imediatamente, mas, infelizmente, a vida da jovem mulher não pôde ser salva.
O trágico acontecimento e a urgência da segurança pública
O incidente em Balneário Piçarras não é um caso isolado, mas um doloroso reflexo da persistente violência contra a mulher que assola o país. A vítima, Daiane Simão da Costa, conforme apurações preliminares, já teria um histórico de desentendimentos com o ex-parceiro, o que frequentemente precede casos de feminicídio. A escolha do local para o crime – em frente a uma unidade da corporação policial – ressalta a dimensão do desespero e da incapacidade de muitas mulheres em encontrar proteção efetiva diante de seus agressores. Este cenário reforça a discussão sobre a necessidade de aprimorar as estratégias de segurança pública e os mecanismos de defesa das vítimas.
O episódio de violência despertou uma onda de consternação entre os moradores de Balneário Piçarras e em todo o estado de Santa Catarina. Autoridades locais, incluindo a Polícia Civil, iniciaram as investigações para elucidar todas as circunstâncias do crime e garantir que o responsável seja devidamente responsabilizado pela Justiça. A pronta resposta das forças de segurança é essencial não apenas para a punição do agressor, mas também para restaurar a confiança da população nos órgãos de proteção.
Feminicídio: uma triste realidade brasileira
O assassinato de Daiane se enquadra na tipificação legal de feminicídio, que é o homicídio de uma mulher cometido por razões da condição de sexo feminino. Essa qualificadora do crime de homicídio foi instituída no Brasil pela Lei nº 13.104/2015 e visa dar visibilidade e combater a violência de gênero que culmina na morte de mulheres, seja por menosprezo ou discriminação à condição feminina, ou em decorrência de violência doméstica e familiar.
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e de outras entidades mostram que o Brasil é um dos países onde mais se mata mulheres no mundo. Em 2023, o número de casos de feminicídio no país atingiu um patamar alarmante, com milhares de mulheres vítimas desse tipo de crime. Santa Catarina, embora apresente números inferiores a estados mais populosos, também registra estatísticas preocupantes de violência doméstica e feminicídios, indicando que a questão é transversal e demanda atenção em todas as esferas federativas.
A Lei do Feminicídio representa um avanço importante na legislação, buscando endurecer as penas e reconhecer a gravidade desse tipo de crime. No entanto, a sua efetividade depende de uma série de fatores, incluindo a denúncia, a investigação rigorosa, o acolhimento das vítimas e a implementação de políticas públicas eficazes de prevenção e combate à violência de gênero. A persistência de casos como o de Balneário Piçarras demonstra que, apesar dos progressos legislativos, ainda há um longo caminho a percorrer na proteção das mulheres.
A busca por ajuda e os desafios da proteção
Muitas mulheres vítimas de violência doméstica tentam, repetidamente, buscar ajuda junto às autoridades. O fato de Daiane ter sido assassinada em frente a um batalhão da Polícia Militar pode indicar uma tentativa, talvez não formalizada naquele momento, de se aproximar de um local de segurança, ou simplesmente a triste coincidência de o agressor a ter encontrado ali. Independentemente das circunstâncias exatas, o episódio realça a vulnerabilidade de mulheres em relacionamentos abusivos e a complexidade de romper o ciclo da violência.
A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) é um marco legal fundamental no combate à violência doméstica e familiar contra a mulher no Brasil. Ela prevê uma série de medidas protetivas de urgência, como o afastamento do agressor do lar, a proibição de contato com a vítima e seus familiares, e a restrição de porte de armas. No entanto, a aplicação dessas medidas e a sua fiscalização enfrentam desafios práticos, como a falta de estrutura, pessoal e recursos em algumas localidades, além da subnotificação de casos.
É crucial que as vítimas de violência saibam que existem canais de denúncia e apoio. O Ligue 180, central de atendimento à mulher em situação de violência, funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana, e é um serviço essencial para orientar e encaminhar denúncias. As Delegacias de Polícia, especialmente as Delegacias da Mulher, também são pontos cruciais de acolhimento e investigação, onde as vítimas podem registrar boletins de ocorrência e solicitar medidas protetivas. A denúncia é o primeiro e mais importante passo para que a rede de proteção possa atuar.
As consequências legais e a resposta da justiça
O agressor de Daiane Simão da Costa, após ser identificado, deverá responder por feminicídio, um crime hediondo que possui pena mais severa do que o homicídio simples, com reclusão de 12 a 30 anos. A qualificação do crime leva em consideração a natureza da relação entre vítima e agressor, bem como as motivações de gênero. A investigação da Polícia Civil de Santa Catarina será fundamental para coletar provas, ouvir testemunhas e garantir que o processo legal transcorra com a devida celeridade e rigor.
Além da pena privativa de liberdade, a condenação por feminicídio carrega um peso social e moral significativo, que busca coibir futuras violências e enviar uma mensagem clara de que a sociedade não tolera mais a barbárie contra as mulheres. A atuação do Ministério Público e do Poder Judiciário é vital para que a justiça seja feita e para que a memória de Daiane e de tantas outras vítimas de feminicídio seja honrada através da aplicação da lei.
A sociedade como um todo precisa se engajar na luta contra a violência de gênero. Isso envolve não apenas a punição dos agressores, mas também a educação, a conscientização e a mudança cultural. Romper o ciclo de violência é uma responsabilidade coletiva que exige a participação de homens e mulheres, de famílias, escolas, empresas e governos, para construir um ambiente onde todas as pessoas, independentemente do gênero, possam viver com dignidade, segurança e paz.



