Em um desenvolvimento que reacende o debate sobre o futuro da governança global, o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, expressou a ideia de que um “Conselho de Paz”, supostamente concebido sob sua liderança para mediar o conflito entre Israel e o Hamas, teria o potencial para substituir as Nações Unidas (ONU). A declaração proeminente do político estadunidense aponta para uma visão alternativa da arquitetura de segurança e diplomacia internacional, desafiando a estrutura de uma das mais antigas e abrangentes organizações globais.
A sugestão de Trump surge em um momento de intensa tensão geopolítica, especialmente no Oriente Médio, onde a guerra entre Israel e o grupo Hamas continua a gerar preocupação e demanda por soluções duradouras. A proposta do ex-presidente levanta questões cruciais sobre a eficácia das instituições multilaterais existentes e a busca por novos modelos de cooperação internacional.
A proposta do ex-presidente e o “Conselho de Paz”
Donald Trump detalhou a visão de que este “Conselho de Paz” foi, de fato, “criado” ou ao menos desenvolvido como parte de um acordo liderado por ele, enquanto ocupava a presidência dos Estados Unidos. O objetivo primordial desse novo órgão, segundo suas declarações, seria o de intermediar o fim da guerra em curso entre Israel e o Hamas, um conflito que tem desestabilizado a região e gerado uma crise humanitária de grandes proporções na Faixa de Gaza. A ideia subjacente é que uma entidade mais focada e potencialmente menos burocrática poderia alcançar resultados onde outras falharam.
A concepção desse “Conselho de Paz”, na perspectiva de Trump, estaria enraizada em uma abordagem de diplomacia que prioriza acordos diretos e soluções pragmáticas, características de sua política externa durante seu mandato. A novidade, contudo, reside na elevação do escopo desse conselho de um papel regional para uma função de substituição integral da Organização das Nações Unidas. A iniciativa, conforme apresentada, buscaria oferecer um caminho alternativo para a resolução de disputas internacionais, potencialmente reformulando a maneira como as potências mundiais abordam a paz e a segurança.
As Nações Unidas: história, estrutura e críticas
As Nações Unidas, fundada em 1945, emergiu das cinzas da Segunda Guerra Mundial com a missão primordial de “preservar as gerações futuras do flagelo da guerra”. Com sede em Nova Iorque, a organização global congrega atualmente 193 estados-membros e é o principal fórum para a diplomacia multilateral. Sua estrutura complexa é composta por seis órgãos principais: a Assembleia Geral, o Conselho de Segurança, o Conselho Econômico e Social (ECOSOC), o Conselho de Tutela (hoje inativo), a Corte Internacional de Justiça (CIJ) e o Secretariado.
O Conselho de Segurança, em particular, detém a principal responsabilidade pela manutenção da paz e segurança internacionais, com poder para emitir resoluções vinculativas. Seus cinco membros permanentes (China, França, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos) possuem poder de veto, uma prerrogativa que frequentemente tem sido alvo de críticas por paralisar ações em crises globais. A Assembleia Geral, por sua vez, é o principal órgão deliberativo, onde todos os estados-membros têm representação igualitária e discutem uma vasta gama de questões internacionais.
Apesar de seus inegáveis sucessos em missões de paz, ajuda humanitária e promoção dos direitos humanos, a ONU não está isenta de críticas. Os desafios incluem a lentidão burocrática, a incapacidade de agir decisivamente em certos conflitos devido a divergências entre os membros permanentes do Conselho de Segurança, e a percepção de falta de representatividade em sua estrutura, que reflete o cenário geopolítico de 1945. Essas críticas, embora não inéditas, ganham novo fôlego com propostas como a de Donald Trump, que buscam alternativas à ordem estabelecida.
O contexto da guerra em Israel e a diplomacia global
A atual escalada do conflito entre Israel e o Hamas, que se intensificou em outubro de 2023, tem sido um teste significativo para a capacidade das instituições internacionais de mediar e resolver crises. A violência, que resultou em milhares de mortes e um deslocamento massivo de civis, expôs as profundas divisões dentro da comunidade internacional e a dificuldade em chegar a um consenso sobre os caminhos para a paz. A ONU tem sido ativa na coordenação de esforços humanitários e na busca por um cessar-fogo, mas suas resoluções e apelos nem sempre foram acatados pelas partes envolvidas ou pelos membros com poder de veto no Conselho de Segurança.
Neste cenário complexo, a busca por soluções inovadoras ou a reformulação de abordagens diplomáticas torna-se um ponto central do debate global. A proposta de Trump, ao vincular diretamente um novo conselho à resolução deste conflito específico, reflete uma insatisfação com os mecanismos tradicionais e a crença de que um novo arranjo poderia ter maior eficácia. É importante notar que a diplomacia em crises como a do Oriente Médio exige não apenas a vontade política das partes, mas também a legitimidade e a capacidade de pressão de mediadores internacionais.
A visão de Donald Trump para a governança global
Durante sua presidência (2017-2021), Donald Trump demonstrou uma postura cética em relação ao multilateralismo e às instituições globais tradicionais. Sua doutrina “America First” priorizou os interesses nacionais dos Estados Unidos acima dos acordos e obrigações internacionais, levando à retirada do país de importantes tratados e organizações, como o Acordo de Paris sobre o clima e o Conselho de Direitos Humanos da ONU, e a críticas abertas à Organização Mundial do Comércio (OMC).
Contrariamente à abordagem multilateral, Trump favoreceu acordos bilaterais e regionais, como exemplificado pelos Acordos de Abraão, que normalizaram as relações entre Israel e várias nações árabes. Essa preferência por arranjos mais diretos e negociados entre partes específicas, em detrimento de fóruns amplos e consensuais, é um pilar de sua filosofia de política externa. A sugestão de um “Conselho de Paz” para substituir a ONU alinha-se a essa visão, propondo um corpo mais ágil e potencialmente menos abrangente, capaz de tomar decisões sem as amarras burocráticas ou os impasses ideológicos que frequentemente afetam a ONU.
Tal perspectiva reflete uma crença de que as instituições criadas no pós-guerra estão desatualizadas ou são ineficazes para os desafios do século XXI. A ideia de reformar ou substituir organizações globais não é nova, mas a proposta de Trump se destaca pela sua radicalidade e pela sugestão de que um órgão concebido especificamente para um conflito regional poderia assumir um papel global de tamanha magnitude.
Desafios e implicações de uma alternativa à ONU
A substituição de uma organização com a envergadura e a complexidade das Nações Unidas representaria um desafio monumental e traria profundas implicações para a ordem internacional. A ONU não é apenas um fórum para a paz e segurança; ela abrange uma vasta gama de áreas, incluindo desenvolvimento sustentável, saúde global, direitos humanos, leis marítimas, aviação civil e cooperação econômica. Criar um novo órgão que possa replicar essa abrangência e legitimidade seria uma tarefa sem precedentes.
A primeira dificuldade reside na obtenção de consenso global. Qualquer nova estrutura internacional exigiria a adesão voluntária e o reconhecimento da maioria das nações, incluindo as grandes potências. A falta de legitimidade e aceitação universal condenaria qualquer iniciativa a ser um fórum marginal. Além disso, a arquitetura financeira e operacional da ONU é vasta, com agências especializadas como a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), que desempenham funções vitais em todo o mundo. Desmontar ou integrar essas operações em um novo sistema seria uma transição de proporções gigantescas.
Do ponto de vista jurídico e político, a ONU é a base de grande parte do direito internacional contemporâneo e oferece um mecanismo para a codificação de normas e convenções. Um “Conselho de Paz” focado principalmente em segurança e resolução de conflitos, conforme sugerido por Trump, dificilmente conseguiria substituir essa função abrangente, correndo o risco de deixar lacunas significativas na governança de outros desafios globais. A proposta, portanto, abre um debate complexo sobre a viabilidade, a necessidade e as consequências de uma mudança tão drástica na estrutura da diplomacia internacional.
Reações e perspectivas futuras
A sugestão de Donald Trump sobre um “Conselho de Paz” substituir a ONU certamente gerará debates acalorados entre diplomatas, acadêmicos e líderes políticos ao redor do mundo. Enquanto alguns podem ver a proposta como um reflexo das frustrações com a ineficácia das instituições existentes e um chamado por uma abordagem mais ágil, outros provavelmente a interpretarão como uma ameaça à ordem multilateral e um potencial fator de desestabilização global.
A comunidade internacional tem um histórico de discussões sobre a reforma da ONU, especialmente do Conselho de Segurança, mas a ideia de uma substituição completa é significativamente mais radical. O futuro da governança global dependerá não apenas das propostas de líderes individuais, mas da capacidade das nações de encontrar um terreno comum para abordar os desafios complexos e interconectados do século XXI, que vão desde conflitos regionais até crises climáticas e pandemias globais. A discussão sobre a viabilidade e o desejo de criar novas estruturas diplomáticas continuará a ser um ponto central na agenda internacional.



