Os signos do zodíaco não funcionam. Por que tanta gente acredita neles?

O signo influencia a personalidade das pessoas? Realizada pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, a pesquisa Percepção Pública da Ciência e Tecnologia no Brasil fez em 2023 esta pergunta para 1.931 pessoas acima de 16 anos, de todas as regiões do país. Responderam “concordo totalmente” 24,9%. Outras 16,2% concordam em parte, totalizando 41,1% da população, o equivalente a 87,7 milhões de pessoas.

No Ocidente, em geral, a proporção é semelhante: aproximadamente uma em cada quatro pessoas acredita plenamente na teoria que defende que a posição dos corpos celestes no momento do nascimento tem impacto direto sobre traços comportamentais – e até mesmo sobre o futuro.

Desenhar mapas astrais é uma prática milenar. Os primeiros registros conhecidos remontam à antiga Mesopotâmia e outras civilizações, especialmente a babilônica e a grega, levaram a técnica adiante com grande dedicação. A própria palavra “astrologia” vem do idioma grego e faz referência às mensagens que as estrelas comunicam. A crença parecia fazer sentido; afinal, a posição do sol em relação à Terra influencia diretamente o planeta, incluindo as estações do ano, assim como a Lua tem impacto nas marés. Por que outros astros não deixariam suas marcas?

Acontece que a astrologia não funciona. A partir do século 17, com o desenvolvimento da astronomia, a ciência passou a comprovar de forma consistente que a posição dos astros não interfere na personalidade. Aliás, mesmo que interferisse, a divisão do ano em signos (palavra que indica a existência de “sinais”) é problemática em diferentes sentidos.

Em primeiro lugar, constelações são imagens projetadas do ponto de vista da Terra. Muitas vezes, estrelas que parecem formar um desenho coerente estão a milhares de quilômetros umas das outras. É o equivalente a procurar formas em nuvens. Ainda assim, na antiga Babilônia, foram identificadas 13 constelações pelas quais o sol passa diante do céu ao longo de um ano. Para facilitar a distribuição por 12 meses, uma delas, a de Ofiúro, ou Serpentário, foi desconsiderada.

“As constelações são porções específicas do céu, como retalhos de uma colcha. E seus nomes são fruto do fato de que elas abrigam conjuntos de estrelas visíveis que formam desenhos que costumam estar associados a ideias de animais, mitos, deuses etc. Os signos astrológicos são definidos como sendo a constelação que se encontra ‘atrás do sol’ no momento do nascimento do indivíduo”, explica Marcelo Girardi Schappo, doutor em física pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e professor do Instituto Federal de Santa Catarina, além de organizador do livro “Armadilhas camufladas de ciência”.

Outro problema: ao longo de um ano, o sol não se apresenta pela mesma quantidade de dias diante de cada um desses agrupamentos, ainda que a astrologia tenha estabelecido um período padrão para cada signo. “Com base em definições modernas, o sol fica menos de 25 dias em Áries e mais de 30 em Touro, por exemplo”, diz o professor. Além disso, ao longo dos mais de 5 mil anos desde que as constelações foram identificadas pela primeira vez, sua posição em relação à Terra mudou. “Enquanto a astrologia aponta como leonino alguém que nasce em 5 de agosto, por exemplo, astronomicamente já sabemos que o sol, nesse dia, está em câncer”.

A astrologia precisaria, portanto, se atualizar? “Para a ciência, tanto faz. Afinal, não é isso que define se a astrologia funciona ou não, mas sim sua capacidade de fazer afirmações que possam ser verificadas com sucesso em testes estatísticos com grandes quantidades de indivíduos”, responde Schappo. “Como isso ainda não aconteceu, pouco importa se os astrólogos vão implementar atualizações astronômicas em seus sistemas de crenças ou não”.

A partir de meados do século 20, diferentes pesquisas acadêmicas testaram o efeito do horóscopo sobre a vida das pessoas – e não encontraram evidências que validassem a tese. Nos anos 1980, por exemplo, o físico americano Shawn Carlson convidou 28 astrólogos para analisar 116 pessoas cujas fichas constavam do inventário de perfis psicológicos da Universidade da Califórnia. Eles receberam três descrições para cada uma delas, e precisavam escolher a correta.

Como indica o artigo científico publicado em 1985 na revista Nature, eles acertaram em aproximadamente um terço dos casos – a mesma fração que qualquer pessoa alcançaria, em média, se escolhesse as opções aleatoriamente. “Trabalhamos com alguns dos astrólogos mais respeitados dos Estados Unidos e da Europa, recomendados por seus pares, e eles falharam. Não conseguiram alcançar uma performance melhor do que a simples sorte”, afirma o pesquisador.

Dez anos depois, o escritor holandês Rob Nanninga reuniu 50 astrólogos e deu a eles a missão de elaborar um questionário que, caso fosse submetido a um grupo de voluntários, seria capaz de apontar qual a profissão de cada um, entre sete alternativas apresentadas previamente. Eles elaboraram 49 perguntas e receberam, além das respostas, informações sobre as datas de nascimento, casamento ou divórcio, nascimento de filhos, entre outras. Mesmo com todos estes recursos em mão, nenhum dos participantes conseguiu acertar a atividade de mais do que três pessoas. Metade não acertou um perfil profissional sequer.

Ao longo dos anos, dezenas de estudos como estes avaliaram a capacidade da astrologia em prever inteligência, sucesso profissional, extroversão, risco de desenvolver depressão – e até mesmo chances de ser feliz no amor, alvo, por exemplo, de uma pesquisa realizada por Jonas Helgertz e Kirk Scott, do departamento de história econômica da Universidade de Lund, na Suécia. Em 2020 eles publicaram as conclusões a que chegaram ao analisar a trajetória de 66 mil casais entre 1968 e 2001. Eles queriam entender se a astrologia acertou ao definir que signos combinam melhor em relacionamentos de longo prazo – e, portanto, poderiam prever a maior probabilidade de acontecerem separações entre casais.

“Primeiro, não há indícios sugerindo que indivíduos com combinações astrológicas favoráveis ​​de signos solares sejam mais propensos a se casar”, constataram. “Segundo, nossos resultados não apenas indicam diferenças triviais e estatisticamente insignificantes no risco de divórcio dependendo do grau de compatibilidade astrológica dos casais, como também não sugerem qualquer risco sistematicamente menor de divórcio entre casais considerados altamente compatíveis”.

Mas por que, ainda assim, a astrologia segue tão popular? O Efeito Barnum, também conhecido como Efeito Forer, ajuda a explicar este fenômeno. Os dois nomes se referem à tendência que as pessoas têm de aceitarem descrições vagas e genéricas de personalidade como sendo precisas e significativas – mesmo que, no limite, pudessem se aplicar a quase qualquer pessoa. A primeira expressão surgiu em 1956, no ensaio “Wanted – A Good Cookbook”, em que o psicólogo Paul E. Meehl critica os testes psicológicos realizados pelo showman Phineas Taylor Barnum, famoso pela capacidade de manipular o estado emocional de suas plateias.

O segundo termo foi estabelecido ainda antes, em 1949, quando o psicólogo Bertrand Forer aplicou um teste de personalidade a um grupo de estudantes. Todos receberam uma lista de características pessoais e foram convidados a avaliar se o texto descrevia seus próprios traços psicológicos, em uma nota de 0 a 5. A média da classe foi de 4,26. Sinal de que eles se identificaram com quase todo o relato.

Acontece que eles haviam recebido o mesmo conteúdo. Era uma compilação de frases de uma coluna de astrologia que, entre outras afirmações genéricas, afirmava: “Você tem necessidade de ser amado e admirado pelos outros; contudo, demonstra tendência crítica a si mesmo”. As conclusões foram publicadas no Journal of Abnormal and Social Psychology, em 1949, e replicadas com sucesso muitas vezes desde então.

“Isso explicaria por que, em relação aos horóscopos, por exemplo, tanto os astrólogos, como os seus leitores concordam em que os feedbacks fornecidos são exatos, refletindo traços e tendências da personalidade de uma pessoa com probabilidade de acerto superior ao acaso”, descrevem Guenia Bunchaft e Helmuth Krüger, pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Universidade Católica de Petrópolis, respectivamente, em artigo sobre o assunto.

Para Schappo, este aspecto ajuda a entender o sucesso da astrologia. “As pessoas não lidam bem com incertezas. E estamos sujeitos a muitas incertezas no nosso cotidiano, uma vez que precisamos tomar decisões o tempo todo: não sabemos se o namoro vai dar em um casamento feliz; se vale a pena trocar um emprego por outro; se devemos investir na Bolsa de Valores ou abrir uma empresa própria; temos dúvidas sobre qual área buscarmos formação profissional, e assim por diante”.

Nesse sentido, prossegue ele, “quando as pessoas acreditam em astrologia, acreditam, por consequência, que as afirmações oriundas dela são capazes de fornecer tendências, dicas e sugestões que podem ajudar a lidar com a ansiedade por não saber qual rumo seguir. É, portanto, uma crença reconfortante”. Trata-se, em outras palavras, de “uma pseudociência que se parece com ciência genuína”, diz o especialista.

Essa busca por definições psicológicas confiáveis e previsões seguras para o futuro gera um fenômeno curioso: as pessoas que acreditam em astrologia podem acabar se comportando de acordo com ela, como descreve o professor. E, assim, confirmando as previsões que haviam lido ou ouvido dias antes.

“Eu mesmo conheço pessoas que já tomaram decisões importantes na vida, como trocar de emprego, por conta de supostos apontamentos astrológicos. Além disso, a própria mídia já noticiou casos de empresas que usam mapa astral para decidir se contratam ou não determinado sujeito”, afirma.

Muitas pessoas se baseiam na astrologia para buscar não apenas conforto, mas orientação para tomadas de decisão importantes. Por isso, diz Schappo, chegou o momento de redimensionar a astrologia. “Vamos, sim, lembrar dela como ela deve ser lembrada: um fruto da cultura e da história da humanidade, mas que acabou sendo superada pelos avanços da ciência, da física e da astronomia, como muitas outras ideias assim o foram”.

Fonte: Gazeta do Povo


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