Como os Estados Unidos compraram metade do seu território

O que parecia ser um interesse estratégico tornou-se praticamente uma obsessão após seu governo capturar o ditador venezuelano Nicolás Maduro. 

Independentemente do que pensam apoiadores e opositores de Trump, a compra e anexação de territórios aos EUA não é novidade na história do país. Pelo contrário: é uma prática recorrente e que foi fundamental para a consolidação do país como a potência hegemônica no Ocidente.

A seguir, vamos entender melhor a gênese dessa prática e recapitular alguns dos principais episódios envolvendo anexação de territórios aos EUA após o nascimento da nação. 

“A lógica dos Estados Unidos, de 1776 para cá, foi a de dominação e controle”, define o professor Wesley Spinoza Santana, doutor em Educação, Arte e História da Cultura e docente da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Ele explica que, desde muito cedo, os EUA entenderam que a “lógica do capital” deveria definir não apenas as relações comerciais, mas também as políticas — e dentro de um sistema histórico em que o capital organiza a política, a expansão territorial aparece como uma consequência quase natural dessa engrenagem.

“Para nós termos uma ideia, os Estados Unidos se tornam independentes em 1776 e já no início do século XIX, em 1803, compram a Luisiana dos franceses”, comenta Santana.

O professor explica que à época da Independência dos Estados Unidos, o país já era uma potência comercial, com presença forte no Caribe e domínio do eixo Atlântico com a Europa.  “A ideia de ter condições de barganha, de negociar com a Europa, que um dia foi metrópole […], mostra o desenvolvimento dos Estados Unidos e a sua política imperialista desde a origem”, acrescenta o professor.

Para garantir a expansão e o controle de territórios, Santana destaca que os EUA usavam todas as “cartas disponíveis em seu baralho geopolítico. “EEEntão esses acordos, essas compras, têem um quê de diplomacia, um quê de geopolítica, um quê de econômico e um quê de militarização”, resume.

A Compra da Luisiana, concluída em 1803, é considerada o marco inaugural da expansão territorial americana por via diplomática.

Em uma negociação com a França de Napoleão Bonaparte, os Estados Unidos adquiriram um território de cerca de 1,3 milhão de quilômetros quadrados, praticamente dobrando sua extensão territorial e redefinindo o futuro político da América do Norte.

O valor pago — US$ 15 milhões — foi modesto mesmo para os padrões da época e tornou-se símbolo de um dos negócios territoriais mais vantajosos da história do país. O montante equivale a algumas centenas de milhões de dólares atualmente

O contexto internacional foi decisivo. A França, enfraquecida por conflitos na Europa e pela revolta na República Dominicana, avaliou que manter a Louisiana era caro e arriscado. Inicialmente interessados apenas no porto de Nova Orleans, os diplomatas americanos acabaram aceitando a proposta de compra de todo o território.

A decisão colocou o presidente Thomas Jefferson diante de um dilema constitucional, já que a Carta não previa explicitamente aquisições territoriais. Ainda assim, o Congresso ratificou o acordo, consolidando a ideia de poderes implícitos do governo federal e estabelecendo um precedente duradouro para a expansão por compra.

A incorporação da Flórida seguiu uma lógica distinta, não sendo necessariamente uma compra. Formalizada pelo Tratado de Adams-Onís, em 1819, a anexação não envolveu pagamento direto pelo território, mas resultou de uma combinação de instabilidade regional, pressão militar e enfraquecimento da Espanha.

Pouco povoada e mal defendida, a Flórida havia se tornado foco de tensões, e servia ndo de refúgio para indígenas seminoles e escravizados fugitivos.

Uma invasão ao território, conduzida por Andrew Jackson em 1818, evidenciou a disposição americana de agir militarmente, mesmo sem autorização explícita. Sem condições de reagir, a Espanha aceitou negociar.

Pelo tratado, os espanhóis cederameu a Flórida aos Estados Unidos, que assumiram indenizações de até US$ 5 milhões e, em contrapartida, renunciaram temporariamente a reivindicações sobre o Texas.

O capítulo mais conflituoso da expansão territorial dos EUA envolveu territórios que pertenciam ao México.

O processo teve início com a independência do Texas, em 1836, e sua posterior anexação pelos Estados Unidos, em 1845. Essa decisão levou à ruptura diplomática com o governo mexicano.

A disputa sobre a fronteira texana escalou para a Guerra Mexicano-Americana (1846–1848), vencida pelos EUA.

O Tratado de Guadalupe Hidalgo, assinado em 1848, formalizou a chamada Cessão Mexicana. Pelo acordo, o México cedeu cerca de 55% de seu território original, incluindo áreas que hoje correspondem a partes da Califórnia, Nevada, Utah, Novo México, Arizona e Colorado.

Em troca, os Estados Unidos pagaram US$ 15 milhões e assumiram dívidas do governo mexicano com cidadãos americanos. O tratado redefiniu profundamente o mapa do Oeste e acelerou a ocupação dessas regiões.

Em 1853, a Compra Gadsden completou o redesenho da fronteira sul. Por US$ 10 milhões, os EUA adquiriram cerca de 78 mil quilômetros quadrados no sul do Arizona e do Novo México, com o objetivo estratégico de viabilizar uma ferrovia transcontinental.

Juntos, esses episódios consolidaram a fronteira atual entre os dois países e demonstraram como a expansão americana combinou guerra, diplomacia e transações financeiras.

A compra do Alasca, em 1867, ampliou a presença dos Estados Unidos para além do continente contínuo.

O território foi adquirido do Império Russo por US$ 7,2 milhões, em um contexto de dificuldades financeiras e estratégicas enfrentadas por São Petersburgo. Temendo perder o Alasca para os britânicos em um conflito futuro, a Rússia optou por vendê-lo aos americanos.

À época, o negócio foi alvo de críticas e ironias; o acordo foi , sendo chamado de “loucura de Seward” (então secretário de Estado americano).

Décadas depois, a descoberta de riquezas minerais e a importância estratégica do território no Ártico mudaram essa percepção. O Alasca tornou-se estado em 1959 e passou a ser visto como uma das aquisições mais visionárias da história americana.

A anexação do Havaí marcou a transição dos EUA para uma potência com ambições ultramarinas. Em 1893, um grupo de plantadores e comerciantes organizou um golpe de Estado contra a monarquia local, com apoio de representantes diplomáticos e da presença militar americana no arquipélago.

A rainha foi deposta e, para evitar derramamento de sangue, optou por não resistir militarmente, esperando que os Estados Unidos revertessem o golpe — o que não ocorreu.

Isso ocorreu sobretudo porque, durante a Guerra Hispano-Americana, o Havaí passou a ser visto como essencial para operações militares no Pacífico. Apesar da resistência de parte da população nativa, a anexação consolidou a presença americana na região.

O arquipélago tornou-se estado apenas em 1959, encerrando um ciclo iniciado no auge do expansionismo do século XIX.

É à luz desse histórico que se insere o interesse americano pela Groenlândia. Desde o século XIX, logo após a compra do Alasca, autoridades dos EUA cogitaram estender sua influência no Ártico com a aquisição da ilha.

Ao longo do século XX, esse interesse ressurgiu, incluindo uma oferta formal feita em 1946, recusada pela Dinamarca.

A presença militar americana na ilha consolidou-se durante a Segunda Guerra Mundial e foi formalizada no pós-guerra por acordos de defesa.

Nas últimas décadas, porém, fatores como recursos naturais, rotas estratégicas e rivalidade global reacenderam o debate. Recentemente, com Donald Trump, a ideia de adquirir ou controlar a Groenlândia voltou ao centro da política internacional, provocando reações duras de Copenhague e das lideranças locais.

A recorrência histórica da expansão territorial americana ajuda a compreender por que a ideia de “comprar” a Groenlândia não soa absurda dentro de certos círculos políticos dos Estados Unidos.

Trata-se de uma mentalidade moldada desde o nascimento da nação.

 O que mudou não foi a lógica, mas o contexto em que ela se expressa e as resistências que encontra.

No século XXI, anexações não se fazem apenas com tratados e cheques. Elas esbarram em soberanias consolidadas, identidades locais e em uma ordem internacional que, embora frágil, ainda impõe limites à lógica do mais forte.

Por isso, Aa Groenlândia, nesse sentido, funciona como um espelho histórico: ao mesmo tempo em que revela a persistência do expansionismo americano, expõe as tensões de um mundo que já não aceita tão facilmente as regras do século XIX.

Fonte: Gazeta do Povo


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