Descoberta de terras raras em minas de carvão pode transformar a mineração em Santa Catarina

Uma nova e promissora perspectiva emerge para o setor de mineração em Santa Catarina, com a recente descoberta de um potencial significativo de elementos de terras raras associados às camadas de extração de carvão mineral. Essa revelação pode redefinir o futuro da indústria extrativa no estado e posicionar o Brasil como um ator relevante na cadeia global desses materiais cruciais para a tecnologia moderna.

A possibilidade de que as minas de carvão catarinenses abriguem reservas desses elementos estratégicos tem gerado grande expectativa. Em um movimento que sublinha a importância da questão, o presidente do Sindicato da Indústria de Extração de Carvão do Estado de Santa Catarina (SIECESC), Fernando Zancan, teve uma audiência com o ministro de Minas e Energia, para discutir as perspectivas e os próximos passos para a avaliação e possível extração desses recursos valiosos.

A importância estratégica dos elementos de terras raras

Os elementos de terras raras (ETR) são um grupo de 17 elementos químicos – escândio, ítrio e os 15 lantanídeos – que, apesar de não serem “raros” em termos de abundância geológica, são difíceis de encontrar em concentrações economicamente viáveis para extração e, principalmente, processamento. Eles são componentes indispensáveis em uma vasta gama de tecnologias avançadas que moldam o mundo contemporâneo.

Sua aplicação abrange desde itens de consumo diário, como smartphones, televisores de tela plana e computadores, até tecnologias de ponta em setores como energias renováveis (turbinas eólicas e painéis solares), veículos elétricos, equipamentos médicos de alta precisão (como ressonância magnética), sistemas de defesa, aviônicos e catalisadores industriais. A demanda por esses materiais tem crescido exponencialmente em escala global, impulsionada pela transição energética e pela corrida tecnológica. O Ministério de Minas e Energia (MME) tem enfatizado a relevância desses elementos para a soberania tecnológica e econômica do país.

Atualmente, o mercado global de terras raras é predominantemente dominado pela China, que controla a maior parte da produção e do refino mundial. Essa concentração tem gerado preocupações sobre a segurança do fornecimento em outras nações, levando a um esforço global para diversificar as fontes e as cadeias de suprimentos. A descoberta em Santa Catarina, portanto, insere-se nesse contexto de busca por alternativas e autonomia mineral.

O cenário da mineração de carvão em Santa Catarina

A região Sul de Santa Catarina possui uma rica história ligada à mineração de carvão, um setor que foi fundamental para o desenvolvimento industrial do estado e do país ao longo do século XX. Cidades como Criciúma, Urussanga e Lauro Müller são exemplos de municípios cuja economia e identidade foram moldadas pela extração do mineral. Por décadas, o carvão catarinense foi a principal fonte de energia para termelétricas e um insumo essencial para a siderurgia nacional.

No entanto, o setor de carvão tem enfrentado desafios significativos nas últimas décadas, incluindo pressões ambientais para a descarbonização da economia e a concorrência com outras fontes de energia. Essa realidade tem impulsionado a indústria a buscar novas avenidas para a sustentabilidade e a diversificação de suas operações. A possível presença de terras raras, portanto, surge como uma oportunidade de revitalização e de reposicionamento estratégico para as empresas e comunidades envolvidas na mineração.

De acordo com dados do Serviço Geológico do Brasil (CPRM) e da Agência Nacional de Mineração (ANM), o potencial geológico brasileiro para terras raras é promissor, com ocorrências já identificadas em outras regiões do país. Contudo, a associação desses elementos com depósitos de carvão é um aspecto que demanda estudos específicos, uma vez que a geologia da formação carbonífera pode apresentar particularidades favoráveis à concentração desses minerais, especialmente nos estratos rochosos adjacentes ou intercalados às camadas de carvão.

Desafios e oportunidades na extração de terras raras no Brasil

A transição de uma descoberta potencial para a produção efetiva de terras raras envolve uma série de etapas complexas e de alto investimento. O processo de extração desses elementos é notoriamente difícil, exigindo tecnologias avançadas tanto na mineração quanto no beneficiamento e na separação dos diferentes elementos, que muitas vezes ocorrem em conjunto. Além disso, as questões ambientais são uma preocupação central, demandando rigorosos licenciamentos e práticas de mineração sustentável para mitigar impactos.

A oportunidade, contudo, é imensa. Para Santa Catarina, isso pode significar a criação de novos empregos de alta qualificação, o desenvolvimento de um novo polo tecnológico e a atração de investimentos significativos para a região. Para o Brasil, representa um passo importante na busca pela autonomia em minerais estratégicos, fortalecendo a segurança energética e industrial do país e reduzindo a dependência de fornecedores externos. Seria também um incentivo para o avanço da pesquisa e desenvolvimento em geologia, mineralogia e engenharia de materiais.

O desafio não se limita à extração. É fundamental desenvolver uma capacidade nacional para o processamento e refino desses elementos, transformando o minério bruto em óxidos ou metais puros que possam ser utilizados pela indústria de alta tecnologia. Isso requer investimentos em infraestrutura, capacitação de mão de obra especializada e estabelecimento de parcerias estratégicas, incluindo a possibilidade de cooperação internacional para transferência de tecnologia.

O papel do Sindicato da Indústria de Extração de Carvão e do Ministério de Minas e Energia

A reunião entre o presidente do SIECESC, Fernando Zancan, e o ministro de Minas e Energia, ressalta a seriedade com que a potencial descoberta está sendo tratada. O sindicato, que representa os interesses das empresas carboníferas catarinenses, desempenha um papel crucial na articulação entre o setor privado, o governo e a comunidade científica. Sua atuação é fundamental para mobilizar recursos, coordenar estudos e defender os interesses da indústria.

A agenda com o Ministério de Minas e Energia demonstra o alinhamento do governo federal com a exploração de novos recursos minerais que possam impulsionar a economia e fortalecer a posição estratégica do Brasil no cenário global. O MME é o órgão responsável por formular e implementar políticas públicas para o setor mineral, incluindo a concessão de direitos de pesquisa e lavra, a regulamentação e a fiscalização das atividades. A discussão envolve necessariamente a análise de viabilidade técnica e econômica, os aspectos regulatórios e as implicações ambientais e sociais da possível exploração.

Os próximos passos deverão incluir a realização de estudos geológicos e mineralógicos mais aprofundados para quantificar as reservas e determinar a concentração dos elementos de terras raras. Também serão necessários estudos de viabilidade econômica e análises de impacto ambiental, para embasar qualquer decisão sobre o avanço do projeto. A Pesquisa Industrial Anual (PIA) do IBGE frequentemente destaca a contribuição da indústria extrativa para o PIB nacional, e novas frentes de mineração, como essa, podem influenciar positivamente esses indicadores.

A expectativa é que, com o apoio governamental e a expertise da indústria carbonífera local, Santa Catarina possa se consolidar como um polo de mineração de relevância não apenas para o carvão, mas também para os tão cobiçados elementos de terras raras, abrindo um novo capítulo na história econômica e tecnológica do estado e do Brasil.

 


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