Não, Nikolas Ferreira não é o Ungido (e ele sabe disso)

Ora, faça-me o favor! Será que quem trata Nikolas Ferreira como o Ungido não percebe que age com um fanatismo (atenção para a hipérbole!) diabólico (eu avisei) semelhante ao dos petistas, que têm em Lula um anjo, um santo, um Salvador? Vale esclarecer logo, porém, que o próprio Nikolas Ferreira rejeita esse caráter sobrenatural que atribuem à atuação política dele. Digo, acho que rejeita. Espero que rejeite. Rejeita, né? Diz que sim, por favor.

Com um pouco de esforço, até consigo entender o que vou chamar aqui de empolgação, embora ache que seja algo um tiquinho mais grave e talvez mais patológico do que isso. Afinal, vivemos num deserto de líderes dignos de admiração sincera. De qualquer admiração. Já disse e repito: a política é o habitat natural dos oportunistas, dos acomodados e até mesmo daqueles que, nos bastidores, agradecem a perseguição do STF, uma perseguição que lhes rende dinheiro e fama. (Tem disso? Tem, sim. Ah, se tem).

Entendo a empolgação, mas não compactuo com a divinização de políticos. Com a transformação de Jair Bolsonaro no Messias redivivo e agora de Nikolas Ferreira no enviado dos Céus para nos livrar do jugo dos ímpios de toga. Ou qualquer outra coisa que se diga nesse sentido, usando esse jargão neopentecostal (nada contra na igreja, tudo contra no palanque). O problema, aqui, não é a fé em si, e sim dedicar à política uma devoção que só a fé merece.

E é por isso que, antes de falar do raio, vou falar mais uma vez que não, gente, por favor e pelamordedeus, não: Nikolas Ferreira não é o Ungido. E é bom que ele venha a público deixar isso muuuuuito claro. Afinal, a maior prova de maturidade de um líder é justamente resistir à tentação de ser tratado como um salvador. Um messias. Um escolhido. Um… ungido sobre o qual pairam gigantescas auréolas captadas por câmeras abençoadas.

Tentação essa à qual, aliás, Jair Bolsonaro cedeu e não adianta ficar brabo comigo. Cedeu, ué. Fazer o quê? E a consequência disso é o que estamos vendo. Mas já passou da hora de aprender com os erros, né? Por isso, na hora em que a sua imaginação esperançosa começar a flutuar, flutuar, subir, subir até alcançar as nuvens da insanidade, convém fechar os olhos com força, balançar a cabeça e lembrar: Nikolas Ferreira é apenas um político que, nesse lance da caminhada aí, resolveu tirar a bunda da cadeira. O que, aliás, não é nada mais do que a obrigação dele.

Agora, o raio. Pois bem. A esta altura você já deve ter ficado sabendo que um raio, eufemisticamente chamado de “descarga elétrica”, caiu no descampado onde se reuniam os manifestantes da Caminhada do Nikolas. Feriu uns tantos, mas ninguém morreu. Uma infelicidade que me lembrou do conselho da professora de Ciências, acho que da 4ª série: durante uma tempestade, nunca se proteja sob uma árvore nem fique num descampado.

A esquerda, comumente e comunamente ateia, apelou para um animismo oportunista para dizer que o raio tinha sido um aviso dos céus. Um sinal de que o clamor por liberdade é coisa das trevas. (Pode falar “trevas” ainda?). E até um sinal de que Deus não gosta muito de quem mistura política e religião e por isso decidiu castigar os manifestantes. Maluco, né? Mas me responda: no que são diferentes os que dizem que o raio foi sinal da ira divina e os que dizem que Nikolas Ferreira é o Ungido? Eu mesmo respondo: nada. É a mesma loucura, o mesmo fanatismo travestido de devoção e espiritualidade.

Enquanto escrevia este texto, Nikolas Ferreira dava entrevista ao programa Pânico, da Jovem Pan. E as falas do deputado foram certeiras. Parabéns para ele. De verdade. Ele disse, por exemplo, que “(…) não quero ser idolatrado. Quando alguém fala que sou a salvação do país, tá maluco: o Salvador é Jesus”. Em seguida, diz que “se você está achando que, na minha figura ou na figura de qualquer outra pessoa, nós somos uma figura messiânica, no sentido de trazer salvação para o Brasil, você não entendeu nada”.

E concluiu com algo para mim surpreendente. Positivamente surpreendente, ainda mais vindo de alguém associado ao neopentecostalismo político. Nikolas disse que tem gente que pensa algo como “vou votar no Fulano, a direita vai vir, nós venceremos e o Brasil vai se tornar um país perfeito”. E arremata: “Não é assim! Quem promete um paraíso perfeito aqui na Terra é o capeta”. Clap, clap, clap. E mais clap. Clap.

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista, crítico literário, escritor e tradutor. Publicou, entre outros livros, “Manuel Bandeira – A Vida Toda Que Poderia Ter Sido e Foi”, “O Homem que Matou Luiz Inácio” e “Desculpe & Outros Textos que Ninguém Vai Ler”. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.

Fonte: Gazeta do Povo


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