Lista: veja quais deputados votaram de acordo com os princípios conservadores em 2025

A reportagem da Gazeta do Povo selecionou dez projetos importantes votados pela Câmara em 2025 com o objetivo de identificar quais parlamentares estão mais alinhados com os princípios conservadores. A lista inclui temas econômicos, aborto e a pena dos condenados pelo 8 de janeiro.

Para cada projeto, o deputado que votou de acordo com a posição conservadora (a favor da liberdade econômica, das liberdades individuais e dos valores tradicionais) recebeu um ponto. Quem votou da forma oposta recebeu zero — o mesmo vale para quem se absteve ou faltou à votação.

Embora não inclua todas as votações relevantes do ano, a lista considera propostas significativas porque não deixam espaço para gradações.

Por exemplo: uma proposta que cria incentivos fiscais em uma região específica do país pode ser defendida por alguns parlamentares de direita (em nome da redução de impostos) e criticada por outros (que se opõem aos incentivos fiscais regionais). Temas com esse grau de ambiguidade foram deixados de lado.

Um exemplo concreto foi a proposta de suspensão do mandato do deputado Glauber Braga (PSOL-RJ). Alguns parlamentares conservadores votaram a favor da proposta por entenderem que essa era a única punição politicamente viável. Outros votaram contra porque defendiam a cassação, e apenas a cassação, do parlamentar acusado de agredir um militante do Movimento Brasil Livre (MBL). Por causa dessa ambiguidade, essa votação não foi incluída na lista.

Para evitar distorções nos resultados, a lista considera os parlamentares que estavam no exercício do mandato em pelo menos oito das dez votações.

Ao todo, o levantamento incluiu mais de 5 mil votos individuais, todos de 2025. Em uma escala em que 10 é a posição mais conservadora possível, a média geral da Câmara foi 5,3. Veja os destaques.

No levantamento da Gazeta do Povo 47 deputados obtiveram a pontuação máxima — ou seja, votaram de acordo com uma posição conservadora em todos os 10 projetos avaliados. Saiba quem são eles na lista abaixo.

Com uma bancada de cinco deputados, o NOVO aparece com a maior nota na escala de conservadorismo: a média foi 9.

Na verdade, a nota da sigla foi puxada para baixo exclusivamente pelo deputado Ricardo Salles (SP), que obteve 5 pontos. Os outros quatro parlamentares da sigla receberam nota 10. Salles perdeu pontos por ter se ausentado de cinco das dez votações.

Em segundo lugar aparece o PL, com uma média de 8,2. Embora tenha uma clara inclinação à direita, a sigla tem um número maior de parlamentares que o NOVO e ainda possui um contingente considerável de integrantes do “antigo” PL, antes da filiação de Jair Bolsonaro e de outras figuras conservadoras.

No outro extremo da lista, estão PCdoB e PT, ambos com média inferior a 1.

Entre as unidades da federação, as bancadas com o maior alinhamento com as pautas conservadoras foram as de Rondônia (média de 8,5 pontos), Santa Catarina (7,9) e Tocantins (7,4).

No fim da lista, estão Ceará (3,9), Bahia (3,3) e Piauí (2,7).

1) PDL 03/2025 – Susta resolução do CFM sobre o aborto. Posição conservadora: voto Sim.

2) PL 2162/23 – Dosimetria da pena dos condenados pelo 8 de janeiro. Posição conservadora: voto Sim.

3) PL 1112/2023 – Endurece progressão da pena para alguns casos de homicídio. Posição conservadora: voto Sim.

4) PL 3118/2024 (Destaque número 1) – Estabelece cotas raciais em programas de assistência estudantil. Posição conservadora: voto Não.

5) PDL 314/25 – Derruba o decreto que aumentava o IOF. Posição conservadora: voto Sim.

6) PL 769/2024 – Cria cargos no STF. Posição conservadora: voto Não.

7) PLC 177/2023 – Aumenta o número de deputados federais. Posição conservadora: voto Não.

8) PL 2159/2021 – Simplifica o licenciamento ambiental (emendas vindas do Senado). Posição conservadora: voto Sim.

9) Parecer CCJC – SAP 1/2025 – Suspende a ação penal contra o deputado Alexandre Ramagem no STF. Posição conservadora: voto Sim.

10) PL 1663/2023 – Facilita o cancelamento da Contribuição Sindical. Posição conservadora: voto Sim.

Para o cientista político Márcio Coimbra, presidente do Instituto Monitor da Democracia e CEO da consultoria Casa Política, o levantamento revela aspectos que vão além do óbvio. O que mais chama a atenção, segundo ele, não é necessariamente o topo da lista, mas o “recheio”.

A posição do PSD e do MDB próximos à média geral indica um fenômeno político relevante. “Ver o PSD (5,6) e o MDB (6,0) tão próximos da média geral (5,3) mostra como esses partidos se tornaram os verdadeiros fiéis da balança”, diz Coimbra.

Para o analista, essas legendas não são de esquerda, mas flutuam conforme a conveniência do governo da vez, mantendo um pé no conservadorismo institucional.

Outro ponto destacado por Márcio Coimbra é a distância que separa a esquerda do restante da Câmara. O salto de 3,3 do PDT para 1,0 do PSOL e PV demonstra que não há uma centro-esquerda orgânica votando com a direita em temas de valores.

“O abismo ideológico é muito abrupto quando se chega ao núcleo duro do governo”, afirma.

Coimbra também identifica nas votações sobre temas institucionais um divisor importante. Propostas como o aumento do número de deputados e a criação de cargos no STF funcionam como testes que separam o conservadorismo fiscal do de costumes.

“Muitos deputados que são ‘Bíblia e bala’ falham no teste quando o assunto é o inchaço da máquina pública”, afirma.

Quanto à média de 5,3 obtida pela Câmara, o cientista político considera o número extremamente representativo do que chama de “centro-direita pragmática”. Essa pontuação indica que a Casa funciona, em sua maioria, como um contraponto moderado ao Executivo, atualmente de esquerda.

A leve tendência à direita, ele diz, não significa uma adesão ideológica ao conservadorismo, mas sim uma resistência a pautas progressistas e uma defesa de interesses setoriais, como o agronegócio e a questão da segurança.

O analista alerta, no entanto, que essa média é “traiçoeira” — composta por uma massa de parlamentares que vota com a direita em temas de valores, mas que negocia com o governo em questões econômicas e orçamentárias.

“É o famoso ‘direita nos costumes, centrão na economia’”, diz.

A superação do PL pelo Novo no ranking também merece atenção. Para Coimbra, a diferença entre os dois partidos está na formação de suas bancadas.

Segundo ele, o Novo é programático e ideológico, e seleciona seus quadros com base em identidade doutrinária — o que resulta numa fidelidade quase total. “Eles não têm uma ‘ala governista’ escondida”, afirma.

Já o PL, para o analista, virou um gigante heterogêneo. O partido abriga o núcleo bolsonarista, mas também uma ala considerável de parlamentares do centrão pragmático, que estavam no partido antes de 2022 ou entraram apenas pela viabilidade eleitoral e pelo fundo partidário.

Em votações que envolvem o “estômago” da política — cargos, emendas e estrutura do Estado —, a ala mais antiga do PL tende a ser menos conservadora do que o Novo. “O índice de 9,0 do Novo mostra que o partido se consolidou como a única legenda purista em termos de liberalismo econômico somado ao combate ao inchaço estatal”, diz.

Com a proximidade das eleições de 2026, Coimbra projeta que “essas posições se tornem ainda mais nítidas, forçando parlamentares a abandonarem as nuances da média para buscarem uma identificação mais clara com suas bases eleitorais”.

Fonte: Gazeta do Povo


Share This Article