Líder do Movimento Brasil Livre (MBL) e pré-candidato à Presidência, Renan Santos foi um dos que defenderam a bomba atômica brasileira. Em um vídeo postado no X, ele mencionou o clima de piada em torno de Enéas Carneiro, ex-candidato a presidente, quanto ele sugeria a criação da bomba atômica brasileira. Na sequência, ele afirmou que a soberania se constrói “principalmente através da força”.
O líder do MBL disse que o Brasil é um país corrupto e fraco, onde as forças armadas “estão mais preocupadas em ganhar dinheiro do que cuidar da nação”. Para Santos, o país pode ser “facilmente conquistado” nos próximos anos a menos que desenvolva um programa nuclear que passe um recado não só às nações vizinhas, mas também aos Estados Unidos.
“Não foi o direito internacional que salvou a população da Venezuela de Maduro, foi a força de outra nação. A força se estabelece, e faz o que ela quer. O país precisa não só se militarizar, mas se tornar um local forte e sólido economicamente”, completou o pré-candidato à presidência da República.
Do lado da esquerda, o ex-deputado federal pelo PT do Rio de Janeiro Washington Quaquá classificou de “desgraça” o que chamou de abandono do programa nuclear brasileiro. Para Quaquá, a ação de Trump na Venezuela foi “um absurdo anti-civilizatório” que não deixa escolha ao Brasil a não ser atualizar as leis para permitir a criação da bomba atômica brasileira.
“Só é respeitado nesse mundo quem tem tecnologia nuclear e bomba nuclear. Vê se eles [Estados Unidos] se metem com o doidinho da Coreia do Norte. O Brasil precisa mudar a Constituição para fazer com que o país se estabeleça como potência do Sul e tenha condições de dissuadir uma ofensiva como a que foi feita contra a Venezuela”, afirmou Quaquá, que é vice-presidente do PT.
Divulgada em 2024 pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), uma pesquisa realizada pelo instituto Datafolha mostrou que 47% dos brasileiros apoiam a ideia da bomba atômica como forma de se proteger de ameaças de outros países. Só que quando a ameaça parte dos Estados Unidos, esse apoio cai para 27%.
De acordo com Matias Spektor, coordenador da pesquisa e professor da Escola de Relações Internacionais da FGV (FGV RI), o resultado tem duas implicações diretas. Por um lado, a pesquisa alerta para o risco de manipulação da opinião pública por parte de atores políticos interessados em proliferação nuclear, e por outro, os resultados do estudo também sinalizam a percepção da população brasileira de que os Estados Unidos são uma fonte de proteção.
“Minorias bem organizadas são capazes de polarizar sociedades inteiras e desfazer consensos que antes pareciam firmes. Além disso, a promessa estadunidense de apoio ao Brasil acaba com a polarização em torno à questão nuclear. É como se houvesse uma confiança tácita do povo brasileiro em uma eventual proteção militar vinda dos Estados Unidos”, afirmou Spektor.
Está tramitando no Senado uma proposta popular, apresentada em 2020, que autoriza o Brasil a construir uma bomba atômica como forma de dissuadir uma eventual “interferência estrangeira” no país. A sugestão é de autoria do cidadão Vito Angelo Duarte Pascaretta, um médico que reside no Paraná, e conta com o apoio de mais de 31,4 mil pessoas em todos os estados do país para ser oficializada.
Para o autor do pedido, a adesão do Brasil ao tratado serviu para “para reforçar hierarquias de poder internacional”. Segundo o médico, o recente fim da Guerra Fria influenciara as nações a assinarem o tratado, uma vez que os Estados “acreditavam em prometidos benefícios oriundos da globalização via manutenção longeva de uma ordem mundial americana”.
“Tendo em vista as alterações no cenário mundial, o Brasil precisa estar de prontidão para respeitar a vontade soberana de seu povo sobre como conduzir sua política nuclear. Amarras internacionais, que não respeitam nossa vontade, podem acarretar resultados negativos futuramente”, alertou o autor da proposta, ainda em 2020.
Inicialmente, o senador Paulo Paim (PT-RS) havia sido designado relator da sugestão, mas não apresentou um parecer ao longo dos últimos anos. Em abril de 2025, o senador Marcos Pontes (PL-SP) assumiu a relatoria da proposta. Assim como seu antecessor, Pontes não se manifestou oficialmente sobre a viabilidade de tramitação da proposta de criação da bomba atômica brasileira.
Em outubro de 2025 o deputado Kim Kataguiri (União – SP) apresentou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) na qual sugeria uma mudança no texto constitucional que permitisse a criação de armamento nuclear brasileiro. Com a bomba atômica, o Brasil – segundo o deputado – poderia desencorajar eventuais ataques estrangeiros.
Pela proposta, a expressão “para fins pacíficos” seria retirada da Constituição no trecho que fala sobre a atividade nuclear no Brasil. Assim, o país poderia responder a ameaças de conquista de território nacional e de uso de armas de destruição em massa.
Em resposta, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a Academia Brasileira de Ciências (ABC), a Sociedade Brasileira de Física (SBF) e a Sociedade Brasileira de Química (SBQ) divulgaram uma nota conjunta pedindo a rejeição integral da PEC da bomba atômica do Brasil.
Segundo as entidades, alterar essa norma constitucional representaria um “retrocesso civilizatório”, com graves implicações éticas, diplomáticas e morais. A nota afirma que o Brasil construiu sua reputação internacional como uma nação promotora da paz e da cooperação científica, e que “não precisa de bombas atômicas para ser soberano”.
O fortalecimento do país, segundo o documento, depende de investimentos em educação, saúde, ciência e inovação — considerados os verdadeiros pilares da soberania moderna.
O desenvolvimento da tecnologia de enriquecimento de urânio no Brasil foi mantido em sigilo por muitos anos, dentro do programa nuclear paralelo da Marinha (não declarado e sem fiscalização internacional). A existência de um programa foi revelada ao mundo apenas na década de 1990, durante o governo do ex-presidente Fernando Collor de Mello.
Já em 1998 o Brasil aderiu ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares e abandonou sua política de sigilo nuclear por um programa exclusivamente pacífico e sob salvaguardas internacionais.
O Brasil hoje é capaz de enriquecer urânio para alimentar as duas usinas nucleares de Angra dos Reis (RJ). Essa capacidade, porém, é subutilizada. Segundo uma proposta para o Novo Programa Nuclear Brasileiro apresentada pela Frente Parlamentar Mista da Tecnologia e Atividades Nucleares (FPN) em 2022 na Câmara dos Deputados, o Brasil tem a 7ª maior reserva de urânio do mundo, mas depende da importação de combustível nuclear de países como a Rússia.
No documento, a frente parlamentar destaca que além de precisar comprar urânio estrangeiro mesmo com reservas abundantes, o Brasil ainda precisa encaminhar o volume de urânio que é extraído em solo nacional para a Europa para realizar uma das fases do combustível nuclear – a conversão.
“Paradoxalmente, o Brasil é uma das poucas nações do mundo que domina o ciclo do combustível nuclear, ou seja, possui a tecnologia para realizar a conversão no próprio país, mas como não há urânio suficiente, o custo dessa conversão é muito dispendioso”, aponta.
O país trabalha também na construção de instalações e tecnologia para produzir combustível para um submarino movido a energia nuclear, mas ainda não está claro se o Brasil conseguirá desenvolver um motor nuclear para a embarcação. Os reatores dessas embarcações podem usar urânio enriquecido a 20% na forma metálica ou a 90% na forma gasosa.
Segundo analistas, mesmo que fosse tecnicamente capaz de desenvolver uma bomba nuclear, o Brasil ainda teria dificuldade para fazer um programa de mísseis capazes de transportar esse armamento. O país não possui capacidade para construir mísseis balísticos, aviões bombardeiros ou submarinos capazes de lançar bombas nucleares.
Fonte: Gazeta do Povo



